quinta-feira, 14 de julho de 2011

Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra - talvez por isso, quem sabe?
Mas nenhum deles se perguntou.
Não chegaram a usar palavras como especial, diferente ou qualquer outra assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entedê-las.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologias patins marxismo candomblé ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o que? Não é plágio do Pessoa não, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesusinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma. Hein? Claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? Ora, não me venha com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinquenta ácidos, fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? Eu te olhava entupido de mandrix e babava soluçando, perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidária e positiva, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheiro, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária e bábábá bábábá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos a minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, voltei a isso que dizem que é o normal, e cadê a causa, meu, cadê a luta, cadê o po-ten-ci-al criativo? Mato, não mato, atordôo minha sede com sapatinhas dos Ferro's bar ou encho a cara sozinho aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca. Mas, eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor desse ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperado, não mais do que sempre estive, nada de especial, não estou louco nem bêbado, estou é lúcido pra caralho e sei claramente que não tenho saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz integral, absolutamente santo, absolutamente puro, absolutamente limpo, depois tomo outro porre, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas tipo preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentro-de-mim-bábábá-bábábá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

Eu tive tanto amor um dia. Preciso tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era.[...] Que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca esse gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheira, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e anoite já vem chegando.


Morangos Mofados, Os Sobreviventes, Caio Fernando Abreu.

domingo, 3 de julho de 2011

Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir ás minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

[...]
A questão é que o rótulo vende. Ser "politicamente incorreto", no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer "incorreto" - e com isso se vê autorizado a abrir seu destampatório contra as mulheres, os gays, os negros, os índios e quem mais ele conseguir.

Não nego que o "politicamente correto", em suas versões mais extremadas, seja uma interdição ao pensamento, uma polícia ideológica.

Mas o "politicamente incorreto", em sua suposta heresia, na maior parte das vezes não passa de banalidade e estupidez.
[...]


Politicamente fascista, Marcelo Coelho

terça-feira, 17 de maio de 2011

Até um relógio quebrado, no dia, marca duas vezes a hora certa!


Uma imagem...

Desenhando-se, Mauritz Cornelis Escher.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Acreditava-se muito poderoso e sentia-se infeliz. Tão poderoso que imaginava ter escolhido os caminhos antes de neles penetrar - e apenas com o pensamento. Tão infeliz que, julgando-se poderoso, não sabia o que fazer de seu poder e via cada minuto perdido porque não o orientara para um fim. [...]
Ele aprendeu desde cedo a pensar e como não vira de perto nenhum ser humano senão a si mesmo, deslumbrou-se, sofreu, viveu um orgulho doloroso, às vezes leve mas quase sempre difícil de se carregar.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

- Gosto. Mas eu nunca sei o que fazer das pessoas ou das coisas de que eu gosto, elas chegam a me pesar, desde pequeno. Talvez se eu gostasse realmente com o corpo... Talvez me ligasse mais... - São confidências. Deus meu. Agora vou dizer assim: - Foge de mim porque eu não trago paz a ninguém, dou aos outros sempre a mesma taça, faço com que digam: eu estive cego, não era paz o que eu tinha, agora é que a desejo.

(Clarice Lispector, Um Sopro de Vida, p. 101, Ed. Rocco)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Espera - é só um sonho, não pode me machucar!

domingo, 17 de abril de 2011

Sujeito Oculto.

Sempre tenho algo a escrever, mas ocorre um certo bloqueio na organização das palavras. Aí um segundo passa: tudo se transforma em outra interpretação. Tive conversas inspiradoras, li textos excelentes, mas de repente... é revelação de uma palavra.
Ando exigindo demais de mim, e exigir dos outros é consequência. Logo tudo isso não é mais um ciclo, um hábito (doença). Elogiam meu vocabulário, mas simplesmente pareço não encontrar nunca as palavras que quero, e mais uma vez fico sem entender. Aí tudo parece jogado. Mas lembro - "te acalma, é só mais um sintoma".

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Faço o que quero, - continuou -, e ninguém me obriga a escrever a Divina Comédia. Não há outra maneira de ser senão a que é, o resto é bordado inútil[...]

sábado, 2 de abril de 2011

Somos desligados demais para nos limitar a qualquer conversa. A gente ouve, responde e deixa pra lá. Balança a cabeça, finge que entende e o cérebro se tranca, se recusa a trabalhar diante de fatos tão desprovidos de importância. E eles, eles são estúpidos demais para perceber que nem estamos mais ali. Que a nossa cabeça já deu cento e setenta milhões de voltas antes de começarem a contar qualquer lorota. E então a gente sorri, estala os dedos, cruza as pernas e balança o pé em um tic nervoso rezando para calarem a boca e te oferecerem um café ou uma água pelo amor de Deus.

Odeio chás.


Chá das Cinco, Suellen Nara. (equilibriobambo.blogspot.com)
Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir... e rir.