sábado, 26 de junho de 2010

Invictus

Desde a noite que sobre mim se abate,
Negra como seu insondável abismo,
Agradeço aos deuses se existem,
Por minha alma invencível,
Caído nas garras da circunstância,
Nada me faz chorar nem pestanejar,
Minha cabeça ensangüentada segue erguida,
Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra,
Mas a ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará, sem medo.
Não importa quão estreito seja o caminho,
Quão carregada de castigo a sentença.
Sou o senhor do meu destino;
Sou capitão da minha alma.

Willian Ernest, Invictus 1903.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Admirável Mundo Novo

O remorso crônico, e nisso estão de acordo todos os moralistas, é sentimento muito indesejável. Se você se comportou mal, arrependa-se, faça as correções que puder e dedique-se à tarefa de portar-se melhor da próxima vez. De modo nenhum acalente sua má ação. Rolar na sujeira não é o melhor meio de se limpar.

A arte também tem a sua moralidade, e muitas das regras dessa moralidade são as mesmas da ética comum, ou ao menos análogas a elas. Por exemplo: o remorso é tão indesejável em relação a nossa má arte quanto em relação ao nosso mau comportamento. A maldade deve ser encontrada, reconhecida e, se possível, evitada no futuro. Meditar sobre as falhas literárias de há dez anos atrás, procurar remendar uma obra deficiente até chegar à perfeição que não possuía na primeira apresentação, despender a idade madura tentando consertar os pecados artísticos cometidos e legados por essa pessoa diferente que se foi na junventude - decerto tudo isso é vão e fútil. Eis por que este Admirável Mundo Novo é o mesmo do antigo.

Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo 1932.


Prefácio da obra. Leitura iniciada hoje, possivelmente poste a recomendação ao acabá-lo. Aviso-vos.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O analfabeto político.

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos
acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de
vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do
aluguel, do sapato e do remédio dependem das
decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e
estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante
e o pior de todos os bandidos, que é o político
vigarista, pilantra, o corrupto e o lacraio das empresas
nacionais e multinacionais.


Bertolt Brecht, A Exceção e a Regra 1927

Trecho de uma das obras memoráveis desse incrível escritor e dramaturgo alemão. Texto o qual também se faz presente no artigo em que eu escrevi junto ao Acessor do Supremo Tribunal Federal, Dr. Fabrício Muraro Novais e a Professora Assistente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Msc. Vanessa Casotti; A Inelegibilidade fundada na vida pregressa desfavorável dos candidatos, disponível no banco de dados do Tribunal Superior Eleitoral, fica a recomendação de leitura.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciêricias, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a
Sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seia de companhia!

Ó céu azul -o mesmo da minha infância
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ô mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Fernando Pessoa, Lisbon Revisted 1926.

sábado, 19 de junho de 2010

O que é: é.



Já havia tido contato com a obra, mas nada melhor do que a original em digitalização única. Segue a tradução do 119:

Não haja impedimento à união
de almas fiéis; amor não é amor
se se altera ao ver alteração
ou curvar a qualquer pôr e dispor.
Ah, não, é um padrão sempre constante
que enfrenta as tempestades com bravura;
é estrela a qualquer barco navegante,
de ignoto poder, mas dada altura.
Do Tempo, o amor não é bufão, na esfera
da foice cuva em bocas, róseos rostos;
com breve hora ou semana nãos e altera
e até ao julgamento fica a postos.
- E se isto é erro e em mim a prova tem,
- nunca escrevi e nunca amou ninguém.

W.Shakespeare, Sonnets (Sonnet 119)

E esse vai ser o nosso segredo: não era amor!
Págs. 21 e 22.

Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações. Talvez apenas alguns goles... Ah, eis uma lição, eis uma lição, diria a tia: nunca ir adiante, nunca roubar antes de saber se o que você quer roubar existe em alguma parte honestamente reservado para você. Ou não? Roubar torna tudo mais valioso. O gosto do mal - mastigar vermelho, engolir fogo adocicado.
Não acusar-me. Buscar a base do egoísmo: tudo o que não sou não pode me interessar, há impossibilidade de ser além do que se é - no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu quase normalmente -; tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação do meu começo; se a civilização dos Maias não me interessa é porque nada tenho dentro de mim ao que se possa unir aos seus baixos relevos; aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas e é possível que esteja pisando no vital sem saber, é essa a minha maior humildade , adivinha ela.
O pior é que ela poderia riscar tudo o que pensara. Seus pnesamentos eram, depois de erguidos, estátuas no seu jardim e ela passava pelo jardim olhando e seguindo o seu caminho.
[...]
No primeiro, no centro final, a sensação simples e sem adjetivos, tão cega quanto uma pedra rolando. Na imaginação, que só ela tem a força do mal, apenas a visão engradecida e transformada sob ela a verdade impassível. Mente-se e cai-se na verdade. Mesmo na liberdade, quando escolhia alegre novas veredas, reconheci-as depois. Ser livre era seguir-se afinal, e eis de novo o caminho traçado. Ela só veria o que já possuía dentro de si. Perdido pois o gosto de imaginar. E o dia em que chorei? - havia certo desejo de mentir também - estudava matemática e subitamente senti a impossibilidade tremenda e fria do milagre. Olho por essa janela e a única verdade, a verdade que eu não poderia dizer àquele homem, abordando-o, sem que ele fugisse de mim, a única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais. Lembro-me de um estudo cromático de Bach e perco a inteligência. Ele é frio e puro como gelo, no entanto pode-se dormir sobre ele. Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.

Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


Trecho de Tabacaria - Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), 15-1-1928 .