quinta-feira, 26 de agosto de 2010

... um fluído que me envolvia, que eu respirava pelas guelras.
Nos substratos onde a lua brilhava constante e opaca, era liso e fecundante; acima, confusa vozeria e discórdia. Em tudo eu via logo um oposto, uma contradição, e entre o real e irreal, a ironia, o paradoxo. Eu era o meu pior inimigo. Não desejava fazer nada que fosse melhor não fazer. Mesmo em criança, quando não me faltava nada, queria morrer: queria render-me porque não via sentido em lutar. Sentia que nada se provaria, consubstanciaria, somaria ou subtrairia pela continuação de uma existência que eu não pedira. Todos à minha volta eram um fracasso, ou se não, ridículos. Sobretudo os bens sucedidos. Esses me entediavam até as lágrimas. Eu era excessivamente compreensivo, mas não por simpatia. Era uma qualidade totalmente negativa, uma fraqueza que desabrochava à simples visão da infelicidade humana. Jamais ajudei a quem quer que fosse esperando que isso fizesse algum bem; ajudava porque não podia agir de outro modo. Parecia-me fútil querer mudar a condição das coisas;[...]


Henry.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Em qualquer momento que possamos viver, estamos sempre com nossa consciência no centro do tempo, nunca em suas extremidades; poderíamos portanto admitir que cada um de nós traz dentro de si o centro imóvel do tempo infinito. É isto, fundamentalmente, que nos dá a certeza de levar a nossa vida sem o pavor contínuo da morte.

Arthur Schopenhauer, Sobre a indestrutibilidade do nosso ser, pág. 143.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Aos que vierem depois de nós.

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.


Bertolt Brecht, Aos que vierem depois de nós. (1949)
[...]
Se agora é tarde eu já vou-me embora,
fique com a saudade que te resta agora, amor.

E se um dia volte a me encontrar
me trate com respeito, sou merecedor.
E aprenda que se hoje me faz sofrer
pode ser que amanhã eu te devolva a dor.
Negue todo o seu orgulho, que eu te asseguro
nunca te deixar.
E quando estiver sozinha, que bobagem é a minha
volto a te buscar.

Chega perto do meu peito, que nosso defeito
é procurar defeito demais.
E se depois de toda essa vida não houver
partida.
Eu quero viver mais.


Falamansa, Fique Com A Saudade

1 mês! :(

sábado, 14 de agosto de 2010

Avisa

Avisa, avisa, avisa, avisa
Avisa!
Se o sol brilhar de novo no horizonte
Avisa!
E pode ter certeza que eu tô lá pra ver
Avisa!
Se a liberdade te trair e precisar de alguém
Avisa!
Ou se tudo correr bem e não precisar
Avisa!
Parece até que o vento traz o sentimento
Avisa!
E ninguém faz questão de nos avisar
Avisa!
Pro vento que traz sofrimento
Que sopre pra outro lugar
Avisa!
O vento que traz amor
Não vejo a hora de você chegar.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Parece tudo tão falso a idéia de que boas coisas acontecem para boas pessoas, que há mágica no mundo e que os mansos e justos a herdarão. Existem tantas pessoas boas que sofrem por algo assim para falar a verdade. Existem tantas orações não respondidas. Todos os dias, ignoramos como o mundo está arruinado, e dizemos a nós mesmos que tudo ficará bem. "Você vai ficar bem". Mas não está. E uma vez que se dá conta disso não há volta. Não há mágica no mundo. Pelo menos não hoje.

One Tree Hill. Cáp. 21, Sétima Temporada.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Pode levar, sou todo seu
descanse a caixa que esse aí sou eu
é só montar.
Se não aprendeu, o manual aqui perdeu.

Pode juntar pedaço por pedacinho
que no final vai ter amor e carinho.

É isso aí o que eu sou
quebra cabeças que ninguém montou.
E se quiser saber de mim
só não desiste antes do fim.

Pode juntar pedaço por pedacinho
que no final vai ter amor e carinho.

Se não rolar e acontecer
no coração alguma peça se perder
me magoar e me esquecer
se não rolou então não é pra ser

Pode juntar pedaço por pedacinho
e no final me devolver igualzinho.


Falamansa, Quebra-Cabeças.