sexta-feira, 1 de abril de 2011

No entanto, por um caminho natural, se não buscasse um deus exterior terminaria por endeusar-se, por explorar sua própria dor, amando seu passado, buscando refúgio e calor em seus próprios pensamentos, então já nascidos com uma vontade de obra de arte e depois servindo de alimento velho nos períodos estéreis. Havia o perigo de se estabelecer no sofrimento e organizar-se dentro dele, o que seria um vício também e um calmante.
O que fazer então? O que fazer para interromper aquele caminho, conceder-se um intervalo entre ele e ele mesmo, para mais tarde poder reencontra-se sem perigo, novo e puro?
O que fazer?
O piano foi atacado deliberadamente em escalas fortes e uniformes. Exercícios, pensou. Exercícios... Sim, descobriu divertido. Por que não? Porque não tentar amar? Por que não tentar viver?


Leão é pouco. O que eu ando matando pra sobreviver ainda não tem nome.

(Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem)