quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

[...]
A questão é que o rótulo vende. Ser "politicamente incorreto", no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer "incorreto" - e com isso se vê autorizado a abrir seu destampatório contra as mulheres, os gays, os negros, os índios e quem mais ele conseguir.

Não nego que o "politicamente correto", em suas versões mais extremadas, seja uma interdição ao pensamento, uma polícia ideológica.

Mas o "politicamente incorreto", em sua suposta heresia, na maior parte das vezes não passa de banalidade e estupidez.
[...]


Politicamente fascista, Marcelo Coelho

terça-feira, 17 de maio de 2011

Até um relógio quebrado, no dia, marca duas vezes a hora certa!


Uma imagem...

Desenhando-se, Mauritz Cornelis Escher.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Acreditava-se muito poderoso e sentia-se infeliz. Tão poderoso que imaginava ter escolhido os caminhos antes de neles penetrar - e apenas com o pensamento. Tão infeliz que, julgando-se poderoso, não sabia o que fazer de seu poder e via cada minuto perdido porque não o orientara para um fim. [...]
Ele aprendeu desde cedo a pensar e como não vira de perto nenhum ser humano senão a si mesmo, deslumbrou-se, sofreu, viveu um orgulho doloroso, às vezes leve mas quase sempre difícil de se carregar.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

- Gosto. Mas eu nunca sei o que fazer das pessoas ou das coisas de que eu gosto, elas chegam a me pesar, desde pequeno. Talvez se eu gostasse realmente com o corpo... Talvez me ligasse mais... - São confidências. Deus meu. Agora vou dizer assim: - Foge de mim porque eu não trago paz a ninguém, dou aos outros sempre a mesma taça, faço com que digam: eu estive cego, não era paz o que eu tinha, agora é que a desejo.

(Clarice Lispector, Um Sopro de Vida, p. 101, Ed. Rocco)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Espera - é só um sonho, não pode me machucar!

domingo, 17 de abril de 2011

Sujeito Oculto.

Sempre tenho algo a escrever, mas ocorre um certo bloqueio na organização das palavras. Aí um segundo passa: tudo se transforma em outra interpretação. Tive conversas inspiradoras, li textos excelentes, mas de repente... é revelação de uma palavra.
Ando exigindo demais de mim, e exigir dos outros é consequência. Logo tudo isso não é mais um ciclo, um hábito (doença). Elogiam meu vocabulário, mas simplesmente pareço não encontrar nunca as palavras que quero, e mais uma vez fico sem entender. Aí tudo parece jogado. Mas lembro - "te acalma, é só mais um sintoma".

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Faço o que quero, - continuou -, e ninguém me obriga a escrever a Divina Comédia. Não há outra maneira de ser senão a que é, o resto é bordado inútil[...]

sábado, 2 de abril de 2011

Somos desligados demais para nos limitar a qualquer conversa. A gente ouve, responde e deixa pra lá. Balança a cabeça, finge que entende e o cérebro se tranca, se recusa a trabalhar diante de fatos tão desprovidos de importância. E eles, eles são estúpidos demais para perceber que nem estamos mais ali. Que a nossa cabeça já deu cento e setenta milhões de voltas antes de começarem a contar qualquer lorota. E então a gente sorri, estala os dedos, cruza as pernas e balança o pé em um tic nervoso rezando para calarem a boca e te oferecerem um café ou uma água pelo amor de Deus.

Odeio chás.


Chá das Cinco, Suellen Nara. (equilibriobambo.blogspot.com)
Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir... e rir.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

No entanto, por um caminho natural, se não buscasse um deus exterior terminaria por endeusar-se, por explorar sua própria dor, amando seu passado, buscando refúgio e calor em seus próprios pensamentos, então já nascidos com uma vontade de obra de arte e depois servindo de alimento velho nos períodos estéreis. Havia o perigo de se estabelecer no sofrimento e organizar-se dentro dele, o que seria um vício também e um calmante.
O que fazer então? O que fazer para interromper aquele caminho, conceder-se um intervalo entre ele e ele mesmo, para mais tarde poder reencontra-se sem perigo, novo e puro?
O que fazer?
O piano foi atacado deliberadamente em escalas fortes e uniformes. Exercícios, pensou. Exercícios... Sim, descobriu divertido. Por que não? Porque não tentar amar? Por que não tentar viver?


Leão é pouco. O que eu ando matando pra sobreviver ainda não tem nome.

(Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem)

quinta-feira, 31 de março de 2011

Creia, na boa.
Queria ter chego mais cedo,
Mas hoje não deu.
E no momento em que eu perco o filme do começo
Não dá pra voltar.
Chego quando abrir a sessão das dez!
Vou assistir,
Até que me organizei pra chegar.
Não deu e foi mal,
Foi mal, não foi por mal.
Queria tanto ler o letreiro,
Saber de cara quem vai ser o vilão.
Ação, suspense, filme de ninja ou de amor,
Próximo filme vou ser pontual.


Pontual, Tulipa Ruiz.

terça-feira, 29 de março de 2011

Período de interrogação ao meu corpo, de gula, de sono, de amplos passeios ao ar livre. Até que uma frase, um olhar - como o espelho - relembram-me surpreso outros segredos, os que me tornam ilimitado. Fascinado mergulho o corpo no fundo do poço, calo todas as suas fontes e sonâmbulo sigo por outro caminho. - Analisar instante por instante, perceber o núcleo de cada coisa feita de tempo ou de espaço. Possuir cada momento, ligar a consciência a eles, como pequenos filamentos quase imperceptíveis mas fortes. É a vida? Mesmo assim ela me escaparia. Outro modo de captá-la seria viver. Mas o sonho é mais completo que a realidade, esta me afoga na inconsciência. O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo? - Palavras muito puras, gotas de cristal. Sinto a forma brilhante e úmida debatendo-se dentro de mim. Mas onde está o que quero dizer, onde está o que devo dizer? Inspirai-me, eu tenho quase tudo; eu tenho o contorno à espera da essência; é isso? - O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si? Utilizar-se como corpo e alma em proveito do corpo e da alma? Ou transformar sua força em força alheia? Ou esperar que de si mesmo nasça, como uma consequência, a solução? Nada posso dizer ainda dentro de mim. Um dia, depois de falar enfim, ainda terei do que viver? Ou tudo o que eu falasse estaria aquém e além da vida? - Tudo o que é forma de vida procuro afastar. Tento isolar-me para encontra a vida em si mesma. No entanto apoiei-me demais no jogo que distrai e consola e quando dele me afasto, encontro-me bruscamente sem amparo. No momento em que fecho a porta atrás de mim, instantaneamente me desprendo das coisas. Tudo o que foi distancia-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas águas longínquas. Ouço-a, a queda. Alegre e plano espero por mim mesmo, espero que lentamente me eleve e surja verdadeiro diante de meus olhos.
[...]
Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.


Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector.