sábado, 30 de outubro de 2010

E a verdade? A verdade é absurda, confusa, aleatória, desordenada e muito desagradável.
E eu sei que nem eu e nem você aguentariamos passar da introdução sem sermos chamados de loucos!
Vou parar por aqui.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
[...]
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

AC:
Eu tenho buscado muitas formas de me encontrar aqui, pelo menos uma coincidência entre alguma coisa, mas nada se encaixa em mim.
Como se eu tivesse mesmo em outra sintonia, eu não digo mais avançada nem menos avançada, mas diferente...

AS:
Tenho andado assim também... Eu não consigo me envolver com nada! Eu lembro que antes de eu ir embora eu fui apaixonado por muitas coisas. Me apaixonava e vivia para aquilo e era bom no que fazia por conseqüência de amar. Mas não consigo mais me achar, talvez nem nas pessoas.

AC:
É. Ter que tentar arrancar um pouco de essência o tempo todo realmente é cansativo. Mas como você disse, graças a deus, é passageiro.

AS:
O meu maior medo não é simplesmente arrancar. O meu medo é se vou conseguir essa parte de volta. Enfim, estou agoniado!
Acho que está tarde para pular fora do barco.
Ultimamente eu só tenho jogado as coisas fora. Dado sem receber nada em troca. Isso está me fazendo muito mal. Porque cada pedaço que eu jogo fora, me faz perder-me mais em mim mesmo. E para mim simplesmente perde-ser nunca foi caminho algum.

AC:
No sentido de ser ou estar? Você fala no sentido de sua parte inteligível estar sendo apagada pela carnal? Vontade, anseios?

AS:
Não propriamente. A minha parte carnal ta bem longe de algo que eu esteja no momento, considerando. É mais subjetivo.

AC:
Mas eu falo, você está se deixando levar pelas vontades e esquecendo essência?

AS:
Eu não sei. É esse vazio perdido dentro de mim que vem sendo um grande problema. Ando muito confuso. Exemplo é falta de resposta para se simplesmente estou me deixando viver, indo; ou se eu realmente estou me deixando levar por algum tipo de vontade realmente. Mas eu bem acho que que não é a vontade que vem me guiando. Acho mais ser a desorientação.
Bem aquilo que o gato disse a Alice – Se você só quer chegar a algum lugar, qualquer caminho serve.

AC:
Você busca no “nada” a explicação para tudo?

AS:
Eu não sei onde eu quero chegar ao momento. Mas não, o nada é o que eu estou sendo agora. Não estou nele buscando explicação. Está tudo muito vazio...

AC:
Então sinta-se feliz. Eu estou buscando qualquer coisa a explicação pra tudo.

AS:
Nenhum de nós dois vai conseguir.

AC:
É. Eu queria saber quem eu estou agora... Acho que só assim saberia o que eu quero!

AS:
Mas se você souber você já vai estar outra.

AC:
É! Isso! Isso o que eu quero. Não viver apenas para saciar minhas vontades de estar viva.

AS:
Entendi. Não se entregue!
É complicado esperar por um despertar que a gente não crê que aconteça...

AC:
Ainda mais quando esperamos do mundo isso.

AS:
Embora falem que exista, acho muito difícil despertar sozinho. A prova disso é que a gente tenta se achar em tudo, como você disse, em qualquer coisa, e a gente erra. Porque o nosso é estar é o desespero.

AC:
Isso me lembra muito a agonia para Sartre. Ele descrevia tudo o que eu sinto.
Eu não procuro nada nas almas que eu já reconheço.

AS:
É, seria realmente perda de tempo. Até porque o estar agora é a soma.

AC:
Isso!

[...]

AC:
... mas não tive raiva ainda, para escrever.

AS:
Minha inspiração ultimamente tem saído mais da ausência de sentimentos do que propriamente a presença deles.

AC:
Só sem sentimentos a gente consegue pensar né?

AS:
A gente é um pouco mais imparcial, mas eu consigo entender o que Clarice costuma dizer nas obras quando menciona que precisa estar morta para escrever. É exatamente isso! Sem sentimentos, ninguém vive, sente-se morto... Pelo menos é uma escrita imparcial.
Mas quem gosta de ficar morto muito tempo?

AC:
Mesmo! Por isso o ser humano é meio chato às vezes. Tomara que o paraíso seja ser divino.

AS:
É. Vivemos tempos difíceis.

_


Estende a corda, Anjo. Joga migalhas.
Não vamos perder no agora aquilo que já se veio de outros estares.
Se fragmentar faz parte.

Aquele que sair por último do labirinto é mulher do Padre.
A essência a nós nunca vai ser prêmio de nada. Ela é prova e conquista, a todas as fases.
Um grande beijo minha querida amiga.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.

Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu.

domingo, 17 de outubro de 2010

E eu sei qual é o segredo da esfinge. Ela não me devorou porque eu respondi certo à sua pergunta. Mas eu sou um enigma para a esfinge e no entanto não a devorei. Decifra-me, disse eu à esfinge. E esta ficou muda.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

As vezes me dá uma vontade de chorar. Chorar pelas oportunidades perdidas, pelas escolhas erradas, pelas palavras desperdiçadas, pelo tempo que não volta mais. As vezes me dá vontade de matar o mundo, só para ter aquela sensação completa de vazio e esgotar de vez qualquer chance de sobrevivência. Mas tem dias que me dá vontade de ver o sol. De sentir o sol queimar levemente a minha pele, esquentar o meu corpo, refletir seu brilho nas pessoas. Tem dias que me dá vontade de me apaixonar por todo mundo. Homens, mulheres, crianças, animais. Me dá uma ânsia louca de aprender tudo. De uma única vez. Engolir as palavras, devorar os mais belos sentimentos e desfrutar num gole só a ilusão de ser perfeito.
Mas aí vem a dúvida: será que ser perfeito é bom? Fazer as coisas sempre certas, não ter lágrimas para demonstrar o arrependimento, as frustrações. Encontrar as pessoas certas, nos lugares certos. Ter na ponta da língua todo o dicionário dos bons costumes e das regras de etiquetas. Pensando bem eu gosto do choro. Daquele choro selvagem que faz a gente esmurrar as paredes. Porque um dia, querendo ou não, a gente ri da tristeza. A gente debocha dos soluços e fala com um amigo qualquer: você lembra? Eu quero permanecer assim. Cheio de contrastes, de antagonismos, de momentos de paz e momentos de guerra. Eu quero ser esse guerreiro.

Que pra acalmar as coisas precisa matar. Que precisa tirar sangue de alguém para se manter limpo. Ou que precisa se sujar com o próprio sangue para evitar ver o sangue de outrem jorrar. Eu preciso me manter louco, porque os loucos sabem das coisas. Ou não sabem de nada. Eu só sei que eu não quero saber. Eu dispenso as fórmulas, as leis, os números. Eu dispenso tudo que não nasça de mim. Que não brote de dentro de mim, como água desesperada que procura qualquer buraco para encher. Eu quero ser como água. Limpa, transparente, fonte de energia, mas que quando se rebela é capaz de inundar o mundo. Eu não quero ser bom nem mau. Eu não quero ser um “achado” pra ninguém. Eu quero que você me ache em uma esquina qualquer, de uma rua sem nome, de uma cidade perdida. Eu quero alimentar as minhas mágoas só pra depois deixa-las morrer de fome. Eu quero o prazer. Nem que pra isso você tenha que sofrer. E se isso não te agradar pegue suas coisas e saia correndo. Corra sem olhar pra trás. Eu aviso antes. Eu te dou a passagem. Eu pago o trem. Eu não cobro nada. Vá de uma vez, porque hoje eu só preciso de mim. Exclusivamente de mim e de todos os loucos que em mim habitam. Hoje eu só preciso do mundo. Do mundo que eu desenhei, mas que a qualquer momento pode ser substituído por outro!


Divinópolis, 20/05/2010 - André Palestini Gontijo.
Não estou - espero - me julgando com excesso de imparcialidade. mas preciso ser um pouco imparcial senão sucumbo e me enredo na minha forma patética de viver. Aliás fisicamente tenho algo de patético: meus olhos grandes são infantilmente interrogativos ao mesmo tempo em que parecem pedir alguma coisa e meus lábios estão sempre entreabertos como se fica diante de uma surpresa ou então como quando o ar que se respira pelo nariz é insuficiente e então se respira pela boca: ou então como ficam os lábios quando estão prestes a serem beijados. Eu sou, sem ter consciência disso,uma armadilha.

Apesar de sagaz, não compreendo realmente o que está me acontecendo. E o mundo a me exigir decisões para as quais não estou preparado. Decisões não só a respeito de provocar o nascimento de fatos mas também decisões sobre a melhor forma de ser.
Uma tensão de corda de violino.

Eu não compreendo o meu passado mais remoto, a infância e a adolescência que vive sem compreender e sem prestar atenção. Era um avoado. Agora sem o mínimo de apoio na base inicial de minha vida sou solto e periclitante e os acontecimentos vêm a mim como algo sempre descontínuo, não ligados a uma compreensão anterior à qual esses acontecimentos deviam ser uma sucessão inteligível. Mas não: os acontecimentos parecem não ter causa em mim. Eu não entendo propriamente o que me acontece. E meu ponto de vista em relação às honras é primário.
Por que quero fazer de mim um herói? Eu na verdade sou um anti-heroico. O que me atormenta é que tudo é "por enquanto", nada é "sempre". A vida - a partir do momento em que se nasce - é guiada, idealizada pelo sonho. Eu não planejo, eu dou um salto no escuro e mastigo trevas, e nessas trevas às vezes vejo o faiscar luminoso e puro de três brilhantes que não são comíveis. Então subo à tona com um brilhante em cada pupila dos olhos para transpassar o opaco do mundo e outro entre os lábios semicerrados para quando eu falar minhas palavras sejam cristalinas, duras e ofuscantes.


Um Sopro de Vida, Clarice Lispector, págs. 88 e 89, Ed. Rocco.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

E tô achando bom, tô repetindo que bom, Deus, que sou capaz de estar vivo sem vampirizar ninguém, que bom que sou forte, que bom que suporto, que bom que sou criativo e até me divirto e descubro a gota de mel no meio do fel. Colei aquele “Eu Amo Você” no espelho. É pra mim mesmo.

Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tô aprendendo a sair mais cedo
de bares, de brigas e de amores.
Pra não ter que pagar a conta.

Desconforto

Nada tá bom, nada tá certo. Nada é suficiente para me deixar satisfeito. Ando com crise de superioridade e não sei se me envergonho ou me orgulho disso. "Prepotente você, por demostrar indiferença e dispensar um elogio meu", alguém me disse. Quando penso que cheguei no meu limite, descubro que tenho que me esforçar um pouco mais. Rigoroso com tudo. Esnobe demais para demonstrar interesse em coisa alguma. Orgulhoso demais para aceitar os defeitos dos outros, indiferente demais para me apegar a sentimentalismos.
Descarado, nunca digo a verdade. Só faço confundir. Até a verdade é meio duvidosa se for dita por mim. Abuso de reticências e nunca uso um ponto final. Manipulo as pessoas a meu favor. Não estou nem aí. Egoísta demais para me preocupar com os outros.
"O mundo é dos espertos", alguém me disse. Não, o mundo é dos otários, respondi.
Minha cabeça ferve de pensamentos obscuros. Cheguei a morder meu braço até ficar roxo, pelo simples prazer de sentir dor.
Ninguém tem paciência comigo, ficam muito cansados com as minhas conversas porque eu não dou sussego um minuto sequer, não consigo relaxar. Estou sempre questionando tudo, fugindo do óbvio, duvidando dos fatos. Perfeccionista, insuportável!
Eu que sempre critiquei pessoas desse tipo, estou me tornando uma?
O silêncio nunca me incomodou tanto. Quero gritar ao mundo todo o que guardo entalado na garganta, me jogar do mais alto pico sem ter pena de mim mesmo. E eu não tô jogando limpo, não quero saber de regras. Dispenso seu braço direito e seu ombro amigo, dispenso tudo o que vier pela metade, não quero metade de nada. Se é pra fazer, porque não faz direito? Porque não vai até o fim? Covardes, devagar, limitados, isso que são. Se intimidam com um olhar mas não sabem desvendar o que tem por trás dele. Ficam só de braços cruzados esperando que eu me prontifique a explicar as coisas. Isso me cansa profundamente. Ando "complicado demais para sua capacidade de raciocínio."
Está na hora de alguém me explicar as coisas, porque estou cansado de ter que entender tudo sozinho. Quero alguém que me pertube e me conforte, alguém que me bata e depois assopre, mas que não demore muito pra assoprar porque eu sei me curar muito rápido sozinho. Alguém que aperte meus braços e me sacuda com força (sim, é disso que estou falando). Quero que gritem comigo, me digam quem sou, para onde vou e o que tenho que fazer. Alguém que saiba do que eu preciso.
Quero alguém para mandar em mim, porque eu já cansei de ter que mandar nos outros.

* Talvez eu nem queira alguém. Eu quero você, só você, que insiste em me torturar ficando sempre tão longe de mim...


@ equilibriobambo.blogspot

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ouça, querida – disse-lhe Otávia certa vez – não fique assim com essa mentalidade de donzela folhetinesca, não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa ... E que interessa o castigo ou o prêmio? ... Tudo muda tanto que a pessoa que pecou na véspera já não é a mesma a ser punida no dia seguinte.

Ciranda de Pedra, Lygia Fagundes Telles, pág. 82.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Eu só uso o raciocínio como anestésico. Mas para a vida sou diretamente uma perene promessa de entendimento do meu mundo submerso. Agora que existem computadores para quase todo o tipo de procura de soluções intelectuais - volto-me então para o meu rico nada interior. E grito: eu sinto, eu sofro, eu me alegro, eu me comovo. Só o meu enigma me interessa. Mais que tudo, me busco no meu grande vazio.

Procuro me manter isolado contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, tão extraordinária essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num escândalo. Enquanto isso , ora estuda, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra maiúscula nada pode me dar porque vou confessar que também eu devo ter entrado por um beco sem saída como os outros. Porque noto em mim, não um bocado de fatos, e sim procuro quase tragicamente ser. É uma questão de sobrevivência assim como a de comer carne humana quando não há alimento. Luto não contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de espírito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminado vejo que estou tendo uma novidade de espírito.

Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforme num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trêmula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água. Sou um palidíssimo reflexo de erudição. Minha receptividade se afina registrando sem parar as concepções de outros refletindo no meu espelho os matizes sutis das distinções entre as coisas da vida. Eu que sou um resultado do verdadeiro milagre dos instintos. Eu sou um terreno pantanoso. Em mim nasce musgo molhado cobrindo pedras escorregadis.


Um Sopro de Vida, Clarice Lispector, págs. 46 e 47 - Ed. Rocco.

domingo, 3 de outubro de 2010

Não, não pense que é sempre bom, não sou a-todo-bom, a todo alegre o tempo todo, a todo amoroso constantemente. Eu sou estranho, tenho gestos e pensamentos e encanações e neuras e filosofias viajantes e temperamento salgado, e toda uma série de e's que não consigo ajustar aqui, agora, pra você, talvez por não saber ajustá-los nem pra mim. Mas deixa isso tudo pra lá, eu e a minha estranhice, estranheza, estranhagem, estranhamento, estranhação. Estranha ação. É isso aí, sou cheio de estranhas ações. Uma delas é tentar explicar o sentido de uma coisa que nem sentido faz.

Clarissa Corrêa.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A gente sempre acha que é especial na vida de alguém,
mas o que te garante que você não está somente servindo
pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar
outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e
te deixe pra trás, fraco e sangrando.
Daí você espera por alguém que venha te curar.
As vezes esse alguém aparece, outras vezes, não.


Caio Fernando Abreu