sexta-feira, 15 de outubro de 2010

As vezes me dá uma vontade de chorar. Chorar pelas oportunidades perdidas, pelas escolhas erradas, pelas palavras desperdiçadas, pelo tempo que não volta mais. As vezes me dá vontade de matar o mundo, só para ter aquela sensação completa de vazio e esgotar de vez qualquer chance de sobrevivência. Mas tem dias que me dá vontade de ver o sol. De sentir o sol queimar levemente a minha pele, esquentar o meu corpo, refletir seu brilho nas pessoas. Tem dias que me dá vontade de me apaixonar por todo mundo. Homens, mulheres, crianças, animais. Me dá uma ânsia louca de aprender tudo. De uma única vez. Engolir as palavras, devorar os mais belos sentimentos e desfrutar num gole só a ilusão de ser perfeito.
Mas aí vem a dúvida: será que ser perfeito é bom? Fazer as coisas sempre certas, não ter lágrimas para demonstrar o arrependimento, as frustrações. Encontrar as pessoas certas, nos lugares certos. Ter na ponta da língua todo o dicionário dos bons costumes e das regras de etiquetas. Pensando bem eu gosto do choro. Daquele choro selvagem que faz a gente esmurrar as paredes. Porque um dia, querendo ou não, a gente ri da tristeza. A gente debocha dos soluços e fala com um amigo qualquer: você lembra? Eu quero permanecer assim. Cheio de contrastes, de antagonismos, de momentos de paz e momentos de guerra. Eu quero ser esse guerreiro.

Que pra acalmar as coisas precisa matar. Que precisa tirar sangue de alguém para se manter limpo. Ou que precisa se sujar com o próprio sangue para evitar ver o sangue de outrem jorrar. Eu preciso me manter louco, porque os loucos sabem das coisas. Ou não sabem de nada. Eu só sei que eu não quero saber. Eu dispenso as fórmulas, as leis, os números. Eu dispenso tudo que não nasça de mim. Que não brote de dentro de mim, como água desesperada que procura qualquer buraco para encher. Eu quero ser como água. Limpa, transparente, fonte de energia, mas que quando se rebela é capaz de inundar o mundo. Eu não quero ser bom nem mau. Eu não quero ser um “achado” pra ninguém. Eu quero que você me ache em uma esquina qualquer, de uma rua sem nome, de uma cidade perdida. Eu quero alimentar as minhas mágoas só pra depois deixa-las morrer de fome. Eu quero o prazer. Nem que pra isso você tenha que sofrer. E se isso não te agradar pegue suas coisas e saia correndo. Corra sem olhar pra trás. Eu aviso antes. Eu te dou a passagem. Eu pago o trem. Eu não cobro nada. Vá de uma vez, porque hoje eu só preciso de mim. Exclusivamente de mim e de todos os loucos que em mim habitam. Hoje eu só preciso do mundo. Do mundo que eu desenhei, mas que a qualquer momento pode ser substituído por outro!


Divinópolis, 20/05/2010 - André Palestini Gontijo.