quinta-feira, 28 de outubro de 2010

AC:
Eu tenho buscado muitas formas de me encontrar aqui, pelo menos uma coincidência entre alguma coisa, mas nada se encaixa em mim.
Como se eu tivesse mesmo em outra sintonia, eu não digo mais avançada nem menos avançada, mas diferente...

AS:
Tenho andado assim também... Eu não consigo me envolver com nada! Eu lembro que antes de eu ir embora eu fui apaixonado por muitas coisas. Me apaixonava e vivia para aquilo e era bom no que fazia por conseqüência de amar. Mas não consigo mais me achar, talvez nem nas pessoas.

AC:
É. Ter que tentar arrancar um pouco de essência o tempo todo realmente é cansativo. Mas como você disse, graças a deus, é passageiro.

AS:
O meu maior medo não é simplesmente arrancar. O meu medo é se vou conseguir essa parte de volta. Enfim, estou agoniado!
Acho que está tarde para pular fora do barco.
Ultimamente eu só tenho jogado as coisas fora. Dado sem receber nada em troca. Isso está me fazendo muito mal. Porque cada pedaço que eu jogo fora, me faz perder-me mais em mim mesmo. E para mim simplesmente perde-ser nunca foi caminho algum.

AC:
No sentido de ser ou estar? Você fala no sentido de sua parte inteligível estar sendo apagada pela carnal? Vontade, anseios?

AS:
Não propriamente. A minha parte carnal ta bem longe de algo que eu esteja no momento, considerando. É mais subjetivo.

AC:
Mas eu falo, você está se deixando levar pelas vontades e esquecendo essência?

AS:
Eu não sei. É esse vazio perdido dentro de mim que vem sendo um grande problema. Ando muito confuso. Exemplo é falta de resposta para se simplesmente estou me deixando viver, indo; ou se eu realmente estou me deixando levar por algum tipo de vontade realmente. Mas eu bem acho que que não é a vontade que vem me guiando. Acho mais ser a desorientação.
Bem aquilo que o gato disse a Alice – Se você só quer chegar a algum lugar, qualquer caminho serve.

AC:
Você busca no “nada” a explicação para tudo?

AS:
Eu não sei onde eu quero chegar ao momento. Mas não, o nada é o que eu estou sendo agora. Não estou nele buscando explicação. Está tudo muito vazio...

AC:
Então sinta-se feliz. Eu estou buscando qualquer coisa a explicação pra tudo.

AS:
Nenhum de nós dois vai conseguir.

AC:
É. Eu queria saber quem eu estou agora... Acho que só assim saberia o que eu quero!

AS:
Mas se você souber você já vai estar outra.

AC:
É! Isso! Isso o que eu quero. Não viver apenas para saciar minhas vontades de estar viva.

AS:
Entendi. Não se entregue!
É complicado esperar por um despertar que a gente não crê que aconteça...

AC:
Ainda mais quando esperamos do mundo isso.

AS:
Embora falem que exista, acho muito difícil despertar sozinho. A prova disso é que a gente tenta se achar em tudo, como você disse, em qualquer coisa, e a gente erra. Porque o nosso é estar é o desespero.

AC:
Isso me lembra muito a agonia para Sartre. Ele descrevia tudo o que eu sinto.
Eu não procuro nada nas almas que eu já reconheço.

AS:
É, seria realmente perda de tempo. Até porque o estar agora é a soma.

AC:
Isso!

[...]

AC:
... mas não tive raiva ainda, para escrever.

AS:
Minha inspiração ultimamente tem saído mais da ausência de sentimentos do que propriamente a presença deles.

AC:
Só sem sentimentos a gente consegue pensar né?

AS:
A gente é um pouco mais imparcial, mas eu consigo entender o que Clarice costuma dizer nas obras quando menciona que precisa estar morta para escrever. É exatamente isso! Sem sentimentos, ninguém vive, sente-se morto... Pelo menos é uma escrita imparcial.
Mas quem gosta de ficar morto muito tempo?

AC:
Mesmo! Por isso o ser humano é meio chato às vezes. Tomara que o paraíso seja ser divino.

AS:
É. Vivemos tempos difíceis.

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Estende a corda, Anjo. Joga migalhas.
Não vamos perder no agora aquilo que já se veio de outros estares.
Se fragmentar faz parte.

Aquele que sair por último do labirinto é mulher do Padre.
A essência a nós nunca vai ser prêmio de nada. Ela é prova e conquista, a todas as fases.
Um grande beijo minha querida amiga.