Quando eu abrisse os olhos novamente, deveria ser tudo diferente. Deveria manter a consciência que tenho hoje, pois precisava me lembrar da razão de se fechar os olhos; mas precisava de olhos novos, pois precisava esquecer os vícios do olhar.
Os vícios... Como me livraria deles?
Foi quando comecei a me despir. De tudo. Óculos, meias, carapuças e até dos filtros solares. Tudo que não era meu, não era vivo, não era carne, pêlos, dentes e unhas (talvez me livrasse um pouco das unhas também). Tudo que me puseram, mesmo que tenha sido para abrigar do frio. Já não bastava a sensação térmica que a roupa intermediava, não bastava a gripe, o termômetro: era preciso conhecer o frio nu.
E foi de tanto me despir, e não haver mais o que ser despido, é que encontrei esse anônimo incógnito. Estava lá, perdido, sufocado, de olhos arregalados.
Sim, era ele. Era eu. Seria eu se não fosse todo o resto.
Anônimo, incógnito e nu.
Olhei para ele.
Ele olhou para mim...
E olhou para mim...
E olhou para mim...
E nunca lhe era mesma coisa. Era sempre além...
Tão além que o senti no meu âmago... e logo o senti mais dentro... dentro de algo que só me dei conta de que havia ali porque o senti... E ele seguiria, se não tivesse lhe pedido para parar...
Parar onde?!
Dei-me conta de que ele não parava, pois as coisas não lhe tinham final. Tudo se conectava, prosseguia, nada lhe soava categórico. Se lhe desse um ponto final para colocar, ele hesitaria até o final da vida com aquele ponto final na mão.
Então lhe dei reticências...
Fiz-lhe um topete e botei-lhe sapatos vermelhos, pois agradaram aos novos olhos diante o espelho. E me fui, seguindo os fogos.
O Livro Sem Nome, F.V.K.