quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Reciclar a palavra, o telhado e o porão...
Reinventar tantas outras notas musicais,
Escrever o pretexto, o prefácio e o refrão.
Ser essência
Muito mais.
Ser essência
Muito mais.
A porta aberta, o porto acaso, o caos, o cais...

Se lembrar de celebrar muito mais...


(O Teatro Mágico)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra - talvez por isso, quem sabe?
Mas nenhum deles se perguntou.
Não chegaram a usar palavras como especial, diferente ou qualquer outra assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entedê-las.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologias patins marxismo candomblé ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o que? Não é plágio do Pessoa não, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesusinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma. Hein? Claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? Ora, não me venha com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinquenta ácidos, fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? Eu te olhava entupido de mandrix e babava soluçando, perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidária e positiva, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheiro, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária e bábábá bábábá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos a minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, voltei a isso que dizem que é o normal, e cadê a causa, meu, cadê a luta, cadê o po-ten-ci-al criativo? Mato, não mato, atordôo minha sede com sapatinhas dos Ferro's bar ou encho a cara sozinho aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca. Mas, eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor desse ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperado, não mais do que sempre estive, nada de especial, não estou louco nem bêbado, estou é lúcido pra caralho e sei claramente que não tenho saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz integral, absolutamente santo, absolutamente puro, absolutamente limpo, depois tomo outro porre, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas tipo preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentro-de-mim-bábábá-bábábá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

Eu tive tanto amor um dia. Preciso tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era.[...] Que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca esse gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheira, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e anoite já vem chegando.


Morangos Mofados, Os Sobreviventes, Caio Fernando Abreu.

domingo, 3 de julho de 2011

Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir ás minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

[...]
A questão é que o rótulo vende. Ser "politicamente incorreto", no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer "incorreto" - e com isso se vê autorizado a abrir seu destampatório contra as mulheres, os gays, os negros, os índios e quem mais ele conseguir.

Não nego que o "politicamente correto", em suas versões mais extremadas, seja uma interdição ao pensamento, uma polícia ideológica.

Mas o "politicamente incorreto", em sua suposta heresia, na maior parte das vezes não passa de banalidade e estupidez.
[...]


Politicamente fascista, Marcelo Coelho

terça-feira, 17 de maio de 2011

Até um relógio quebrado, no dia, marca duas vezes a hora certa!


Uma imagem...

Desenhando-se, Mauritz Cornelis Escher.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Acreditava-se muito poderoso e sentia-se infeliz. Tão poderoso que imaginava ter escolhido os caminhos antes de neles penetrar - e apenas com o pensamento. Tão infeliz que, julgando-se poderoso, não sabia o que fazer de seu poder e via cada minuto perdido porque não o orientara para um fim. [...]
Ele aprendeu desde cedo a pensar e como não vira de perto nenhum ser humano senão a si mesmo, deslumbrou-se, sofreu, viveu um orgulho doloroso, às vezes leve mas quase sempre difícil de se carregar.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

- Gosto. Mas eu nunca sei o que fazer das pessoas ou das coisas de que eu gosto, elas chegam a me pesar, desde pequeno. Talvez se eu gostasse realmente com o corpo... Talvez me ligasse mais... - São confidências. Deus meu. Agora vou dizer assim: - Foge de mim porque eu não trago paz a ninguém, dou aos outros sempre a mesma taça, faço com que digam: eu estive cego, não era paz o que eu tinha, agora é que a desejo.

(Clarice Lispector, Um Sopro de Vida, p. 101, Ed. Rocco)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Espera - é só um sonho, não pode me machucar!

domingo, 17 de abril de 2011

Sujeito Oculto.

Sempre tenho algo a escrever, mas ocorre um certo bloqueio na organização das palavras. Aí um segundo passa: tudo se transforma em outra interpretação. Tive conversas inspiradoras, li textos excelentes, mas de repente... é revelação de uma palavra.
Ando exigindo demais de mim, e exigir dos outros é consequência. Logo tudo isso não é mais um ciclo, um hábito (doença). Elogiam meu vocabulário, mas simplesmente pareço não encontrar nunca as palavras que quero, e mais uma vez fico sem entender. Aí tudo parece jogado. Mas lembro - "te acalma, é só mais um sintoma".

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Faço o que quero, - continuou -, e ninguém me obriga a escrever a Divina Comédia. Não há outra maneira de ser senão a que é, o resto é bordado inútil[...]

sábado, 2 de abril de 2011

Somos desligados demais para nos limitar a qualquer conversa. A gente ouve, responde e deixa pra lá. Balança a cabeça, finge que entende e o cérebro se tranca, se recusa a trabalhar diante de fatos tão desprovidos de importância. E eles, eles são estúpidos demais para perceber que nem estamos mais ali. Que a nossa cabeça já deu cento e setenta milhões de voltas antes de começarem a contar qualquer lorota. E então a gente sorri, estala os dedos, cruza as pernas e balança o pé em um tic nervoso rezando para calarem a boca e te oferecerem um café ou uma água pelo amor de Deus.

Odeio chás.


Chá das Cinco, Suellen Nara. (equilibriobambo.blogspot.com)
Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir... e rir.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

No entanto, por um caminho natural, se não buscasse um deus exterior terminaria por endeusar-se, por explorar sua própria dor, amando seu passado, buscando refúgio e calor em seus próprios pensamentos, então já nascidos com uma vontade de obra de arte e depois servindo de alimento velho nos períodos estéreis. Havia o perigo de se estabelecer no sofrimento e organizar-se dentro dele, o que seria um vício também e um calmante.
O que fazer então? O que fazer para interromper aquele caminho, conceder-se um intervalo entre ele e ele mesmo, para mais tarde poder reencontra-se sem perigo, novo e puro?
O que fazer?
O piano foi atacado deliberadamente em escalas fortes e uniformes. Exercícios, pensou. Exercícios... Sim, descobriu divertido. Por que não? Porque não tentar amar? Por que não tentar viver?


Leão é pouco. O que eu ando matando pra sobreviver ainda não tem nome.

(Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem)

quinta-feira, 31 de março de 2011

Creia, na boa.
Queria ter chego mais cedo,
Mas hoje não deu.
E no momento em que eu perco o filme do começo
Não dá pra voltar.
Chego quando abrir a sessão das dez!
Vou assistir,
Até que me organizei pra chegar.
Não deu e foi mal,
Foi mal, não foi por mal.
Queria tanto ler o letreiro,
Saber de cara quem vai ser o vilão.
Ação, suspense, filme de ninja ou de amor,
Próximo filme vou ser pontual.


Pontual, Tulipa Ruiz.

terça-feira, 29 de março de 2011

Período de interrogação ao meu corpo, de gula, de sono, de amplos passeios ao ar livre. Até que uma frase, um olhar - como o espelho - relembram-me surpreso outros segredos, os que me tornam ilimitado. Fascinado mergulho o corpo no fundo do poço, calo todas as suas fontes e sonâmbulo sigo por outro caminho. - Analisar instante por instante, perceber o núcleo de cada coisa feita de tempo ou de espaço. Possuir cada momento, ligar a consciência a eles, como pequenos filamentos quase imperceptíveis mas fortes. É a vida? Mesmo assim ela me escaparia. Outro modo de captá-la seria viver. Mas o sonho é mais completo que a realidade, esta me afoga na inconsciência. O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo? - Palavras muito puras, gotas de cristal. Sinto a forma brilhante e úmida debatendo-se dentro de mim. Mas onde está o que quero dizer, onde está o que devo dizer? Inspirai-me, eu tenho quase tudo; eu tenho o contorno à espera da essência; é isso? - O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si? Utilizar-se como corpo e alma em proveito do corpo e da alma? Ou transformar sua força em força alheia? Ou esperar que de si mesmo nasça, como uma consequência, a solução? Nada posso dizer ainda dentro de mim. Um dia, depois de falar enfim, ainda terei do que viver? Ou tudo o que eu falasse estaria aquém e além da vida? - Tudo o que é forma de vida procuro afastar. Tento isolar-me para encontra a vida em si mesma. No entanto apoiei-me demais no jogo que distrai e consola e quando dele me afasto, encontro-me bruscamente sem amparo. No momento em que fecho a porta atrás de mim, instantaneamente me desprendo das coisas. Tudo o que foi distancia-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas águas longínquas. Ouço-a, a queda. Alegre e plano espero por mim mesmo, espero que lentamente me eleve e surja verdadeiro diante de meus olhos.
[...]
Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.


Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector.

segunda-feira, 28 de março de 2011

- O que vai acontecer comigo?
- Não sei - respondeu ele depois de um curto silêncio - talvez você seja feliz alguma vez, não compreendo, de uma felicidade que poucas pessoas invejarão. Nem sei se poderia chamar de felicidade. Talvez você não encontre mais ninguém que sinta como você, como...


(Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres)
Ele falava a tarde toda:
- Afinal nessa busca de prazer está resumida a vida animal. A vida humana é mais complexa: resume-se na busca do prazer, no seu temor, e sobretudo na insatisfação dos intervalos. É um pouco simplista o que estou falando, mansão importa por enquanto. Compreende? Toda ânsia é busca de prazer. Todo remorso, piedade, bondade, é o seu temor. Todo o desespero e as buscas de outros caminhos são a insatisfação. Eis aí um resumo, se você quer. Compreende?



sexta-feira, 25 de março de 2011

Lave o rosto nas águas sagradas da pia, nada como um dia após o outro dia.
[...]
Eu sei, você sabe o que é frustração: maquina de fazer vilão.

terça-feira, 22 de março de 2011

... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas na rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equlíbrio à tona da escuridão - e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com as mesma calma com que não eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo, espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas.

(Amor) Laços de Família, Clarice Lispector.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Pra falar verdade, às vezes minto.
Tentando ser metade do inteiro que eu sinto,
Pra dizer às vezes que às vezes não digo.
Sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo.
"Tanto faz" não satisfaz o que preciso.
Além do mais quem busca nunca é indeciso.
Eu busquei quem sou.


Cuida de Mim, O Teatro Mágico

quarta-feira, 16 de março de 2011

Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida. Preciso demais desabafar!

segunda-feira, 14 de março de 2011

Confundimos amor com paixão, amizade com necessidades em comum, ódio com raiva, prazeroso com indispensável, enfim – torturamos a nós mesmos todos os dias com sentimentos que talvez nem sequer saibamos comunicar uns aos outros. Não valorizamos o transcendental, o abstrato, o inefável, e os colocamos nomes como se fossem limites, sem considerar um qualquer ponto variável. Não se ama igualmente, o apreço não é recíproco e não sabemos quanto tempo leva para algo esfriar e acabar. Nem nós somos mais os mesmos: já fomos, quem sabe, três ou até mais pessoas no decorrer de meros 21 anos?

Quanto tempo mais levará para entender que cada um segue o seu caminho e é absolutamente mais fácil um caminho ser distinto do outro, do que paralelo? E não esqueça: cruzamentos só acontecem em ferrovias.

O que se sente continuará a ser desprezado. As pessoas continuarão a partir. Torne-se indispensável para alguém, mas proteja-se de tornar alguém indispensável para você. Manter-se bem não é somente procurar melhorar, mas sim procurar cada vez mais não se decepcionar com ninguém.

Tudo é relativo. Menos o caráter.


No primeiro, no centro final, a sensação simples e sem adjetivos, tão cega quanto uma pedra rolando. Na imaginação, que só ela tem a força do mal, apenas a visão engradecida e transformada sob ela a verdade impassível. Mente-se e cai-se na verdade. Mesmo na liberdade, quando escolhia alegre novas veredas, reconheci-as depois. Ser livre era seguir-se afinal, e eis de novo o caminho traçado.”

sexta-feira, 11 de março de 2011

Porque, às vezes, acordar tem lá suas muitas desvantagens.

C.L.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Quando os olhos dizem mais que a boca... Complicado!
E toda vez que eu ando um passo de apego eu volto dois, que é pra eu não correr o risco das coisas irem rápidas demais. Não por eu não poder, e sim por eu não querer ser dependente de ninguém. Eu tenho mesmo essa mania de me desfazer um pouco das coisas que me fazem bem, auto defesa, eu acho. Não quero confundir coisas prazerosas com indispensáveis. Se é que você me entende.

Alexandra Moura

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

...

Os sentimentos que as palavras não alcançam sempre me pareceram mais legítimos. Paradoxo não?

Percebi que o excesso de cura também traz males: tédio, insônia, enjôo, ansiedade...

'Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações. Talvez apenas alguns goles...'

sábado, 12 de fevereiro de 2011

‎Tudo tão insuportavelmente relativo...
A única coisa determinada era o desejo. Queria um resultado positivo a toda essa conta. Lembrou, então, que era uma equação. E o valor que sua variável assumisse, afetaria todas as demais infindas variáveis, mesmo que seu horizonte se encerrasse a duas variáveis dali.

Que valor assumir?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Os cacos de um coração partido
São mais sutis e cautelosos que o coração por inteiro. Olham-se uns aos outros antes de tudo. Olham cada centímetro do que os cercam. Então cochicham...

“É uma festa?”

“A festa é pra gente?”

“Por que nos dariam uma festa?"

...até que alcançam a questão essencial:

“Pode comer os docinhos?”

Por mais que se partam, sempre haverá os cacos invariavelmente crédulos. Com a reincidência, tornam-se cada vez mais minoria... Mas lá estão! Esperançosos. São os primeiros a começar dançar, e logo estão tentando convencer e contagiar os outros.

Os mais contidos, ficam a observá-los. Começam a bater o pezinho no chão, mas não se arriscam a entrar na dança ainda até entender toda a coreografia.

E os caquinhos céticos, ah!... esses só dançam ao som de Elvis.

E não aceitam cover.


O Livro Sem Nome, FVK, cap. 7.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O mundo me prefere com dois braços e duas pernas, mas não sei mais ser humano. Sorrir cansa. Chorar cansa. Mas o que mais cansa é procurar desesperadamente um intermediário e esquecer que o mundo é mais que aparências.
Eu sou volúvel. Grande surpresa. Mas ser volúvel também cansa. Porque ninguém leva a sério alguém que passa a semana chorando pra ficar bem na semana seguinte. Como se fosse preciso ser feliz pra sempre ou triste pra sempre pra ser alguma coisa de verdade.
Não quero mais a realidade comum. Isso é o que mais cansa, pra ser bem sincero. Tenho até arrepios de pensar num futuro escrito e óbvio nas prateleiras de gente sem sal. Só de saber o que vai ser de mim, já quero ser outra coisa. Uma coisa nova e diferente, pra quebrar o que é certo.
Eu ando tão cansado de seguir as regras. Ando tentando mudar as regras. Eu sei que o que acomoda não é fácil de mudar, mas alguém um dia tem que dizer chega, né? Pras coisas mudarem, o mundo girar. Tanta engrenagem e tão pouco suor.
Só sei que ando dedicando meus dias pra gente que nem sabe que eu existo. Vou fazer minha faculdade, conseguir meu diploma. Vou fazer o que for preciso pra nunca mais precisar fazer nada. E passar o resto da minha vida fingindo que acredito na minha liberdade.

repost.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Toc Toc...

Quando meu passado bate à porta, eu fico assim sem entender porquê, nem sei muito bem o que fazer. Fico querendo saber se é porque o futuro anda meio distante e eu fico aqui parado no presente ou se é porque meu passado tem coisas que serão do meu futuro e eu não consegui ainda perceber. Estranhamente eu começo a tentar imaginar as coisas de outro modo e talvez acreditar que a questão não é reviver o que passou, mas usar algumas das mesmas palavras e escrever um futuro diferente daquele que já se leu. E mesmo sem entender, eu abro a porta. Espero, olho no olho e pago pra ver se isso de que “o mundo dá voltas” vai funcionar por aqui também.

Descompasso.

Eu quero adiar, cancelar, jogar no lixo os compromissos. Desligar o telefone, o celular e deixar a caixa de e-mail's passar de 100 mensagens não lidas. Eu quero mandar dizer que não estou. Viver de velhos hábitos, nem que por pouquíssimo tempo. Férias do meu mundo sem ritmo, ou de vários ritmos: só não o meu.

O mal da boa criança, é rasgar o pacote com expectativas demais.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

[...]
Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão. Às vezes dá vontade de fazer tudo "errado". Deixar de lado a régua, o compasso, a balança e os 10 mandamentos. Ser ridículo, inadequado, incoerente, falar alto e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. Recusar prazeres incompletos e meias porções. Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim: "Deus, dai-me castidade e continência, mas não agora" ... Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados e sem pressa e sentir o coração acelerar.
Um dia a gente cria juízo, um dia, não tem que ser agora.


Danuza Leão