quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Você só descobre novos caminhos quando muda a direção!

Ao passo de dar seguimento na compreensão da importância de se estabelecer um contrato com a diversidade de formas e conteúdos, me ocorre que escrever, talvez, seja uma das terapias mais eficientes, e pouco desenvolvida nesse ano que se passou. Corro para cá quando percebo que há muitos pensamentos e não há como se 'passar a régua' e fechar uma conta. Aliás, nada fecha. Um imenso aglomerado de valores e palavras inefáveis que, por própria imposição do termo, fogem da possibilidade de descrição por meio de palavras. 'Vício de linguagem', diria à técnica em diálogo com a razão, e em resposta, diria a razão - 'vai muito bem, obrigada, mas é só o que tem para mim?' -, e um silêncio ensurdecedor se estabeleceria novamente. 

Tomado pela censura de quem já disse demais (até aqui!) e teve de pagar uma conta alta, é que percebo, no silêncio, quantas justificações estavam emersas entre as extremidades da corda. Parafraseando a mim mesmo: é complicado viver a dubiedade de ser o próprio psicanalista e o paciente, ainda mais com um advogado no meio. Nesse compasso, tenho de estabelecer, à nível de uma 'quase-metalinguagem', aquilo que não me deixa alcançar a paz: uma ciência de mim mesmo que, também, pelo termo, importa o problema com contradições. O consciente dá execução, e o inconsciente faz sentir. No meio desse fogo cruzado entre agir e sentir, pergunto o porquê de sempre haver um sentimento negativo para cada ação positiva, e onde foi parar toda a 'mansarda' de Lisbon Revisted em Fernando Pessoa. Pois, ao que pese, só restou o "não me peguem pelo braço, já disse que não gosto que me peguem pelo braço". 

De fato, Hamelet estava coberto de razão: A ficção bem como os bobos dos palácios devem dizer a verdade que não pode ser dita. É um nível de abstração perigoso tentar explicar algo por esses meios. Nunca se sabe quando saímos dos trilhos e caímos no incompreensível, aliás, nunca sabemos se queremos, de verdade, explicar algo à alguém. Pois, quando escrevo, não tenho finalidade de saldar qualquer "dívida-explicativa" a qual não tenha assumido, e muito menos a de publicar uma 'carta ao leitor'. 

Clarice morreu como hermética e prolixa, e só muito depois lhe foi devolvida à condição de 'genialidade' que dela foi roubada, deixando-a só, ou melhor, em companhia da depressão. Nietzsche, depois de enlouquecer seu próprio médico, morreu como louco, e até hoje não sabemos se somos o futuro que o compreenderia (mas a soberba característica peculiar da atualidade diz que "sim"). 

Olho para dentro e procuro por respostas para as perguntas que nem deveriam ser feitas, mas quem me responde, por óbvio, não é meu consciente - que é uma autodefesa poderosa -, mas, sim, o inconsciente (ou submerso pensador incompreendido). Aí é quando cada comportamento recebe seu padrão e, ao mesmo tempo, cada pergunta respondida é, friamente, justificada com argumentos irrefutáveis. Você se compreende, aprende a aceitar como vem conduzindo tudo, e vê que saindo do lado psicológico logo o comando é assumido por aquilo que transcende e atinge o lado espiritual. Percebe que o mundo gira, e que você não sabe mais se está em cima ou em baixo, em declínio ou em ascensão. A vida se torna uma eterna oscilação de sentimentos e direções. Mas para quem já usou e abusou da droga da ambição, da força de vontade e do desafio, o morno é a morte. 

Dizia o Gato à Alice: 'se você não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve' (e a questão não é um fim, mas um meio: o fim pouco importa). Seria um período estéreo de objetivos? Seria esse o problema? Àquele que nunca se viu limitado, somente enxerga que não é possível quando não quer, realmente, alcançar aquele algo. Pois se quisesse, nada vos seria impossível. Alguns falam em fé, mas eu prefiro chamar de 'causalidade' (ainda que em uma definição particular). 

A censura, a quem devo a contabilidade de minhas palavras jogadas ao vento a partir de então, me diz que eu devo encerrar aqui. Me diz, também, para não colocar um ponto final, e para repetir comigo mesmo algumas vezes em voz alta: 'que venha o que vier, o que tiver que vir, ou que não venha'. 

"A única coisa que posso fazer
pela sorte
é que ela me encontre trabalhando."
(Pablo Picasso)