sábado, 25 de julho de 2015

Monólogo.

Pensar demais é uma dádiva, mas, ao mesmo tempo, uma maldição. 
Embora tenha plena convicção de que preferiria mil vezes sofrer dessa maldição, do que ser um anencéfalo voluntário. 
Os dias passam e vejo que o "tilt" está cada vez mais perto. 
Óbvio que não será por ausência de processar informações, mas por passar a não compreender como a distopia atingiu um nível tão desenvolvido, ao ponto dessa bagunça nos afetar em vários níveis. 
A esquerda e a direita nunca fizeram tanto sentido. Há uma necessidade em se separar os bois nos dias de hoje. 
Será que posso falar em sensações? Pois, no agora, o palpável nada mais é do que a trilha de um furacão. Rastros, rastros, e mais rastros... 
Enfim, um homem, em cima de um palco, pensando... Pensando alto, é claro! Se não como o público iria saber o que ele está pensando? 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O que o coração não vê a mente não toca,
Não toca. 
O que o coração está cansado de ser,

Desbota. 
Mandinga pra fazer o outro perder, 

Comigo bate e volta.
Comigo bate e quebra. 
Quem dará, quem me dera? 
Quem fará ela inteira dançar? 

sábado, 11 de julho de 2015

Diagnóstico.

"Rapaz, juro que entendo dessa tua ansiedade. 
Acho compreensível você alegar estresse, depressão, cansaço ou me dizer que a pressão sobre você só aumenta. 
Entretanto, estou convicto de que isto se resume em seu próprio remédio. 
Sei que também não anda dormindo mais, mas, tão apenas, pegando no sono. 
Se é que podemos chamar de sono, não é? Três horas inconsciente por força do péssimo hábito de exagerar em remédios. 
Não acredito que lhe direi isso, mas isso só pode lhe ser entendido como uma dádiva. 
Ampliaram seus dias, já que você não vai durar muito. Aliás, acho que você já sabia disso, assim como eu... antes de qualquer exame mais palpável. 
Tua intensidade não tem por onde escoar, rapaz. 
Teu plano de vida não é longo, e sou capaz de apostar que você nunca se imaginou na velhice. 
Pois bem! 
Caio Fernando de Abreu dizia pelas manhãs: 
(...) repito sete vezes para dar sorte: que seja doce, que seja doce, que seja doce... Assim por diante.
Recomendo que faça o mesmo, logo ao acordar, como anestésico. 
No mais, meu prognóstico será inócuo a ti. 
Mas tua vida não será inócua por aqui,
é o que dizem."

- Sabe... acho que estou curado. 
Restou apenas uma cicatriz, 
que só dói quando chove. 
Obrigado, Doutor!
Agora pode me ver a receita daquele tarja preta? 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O texto sem nome.

Então... suas noites passaram a ser torturantes. Leves cochilos de 1h ou 2h, intercalados por longos períodos desorientados. Sentia-se frustrado, pois sempre pensava no que poderia estar fazendo nesses momentos, mas nunca se preparou para orientá-los. Não perdia só os minutos, também entendia que algo em sua saúde já não era o que deveria ser. 
- Ah! Os exames estavam para chegar. Algumas respostas em meio a tantas indefinições, ainda que negativas e mornas. O que a longo prazo o fariam lhe sentir ainda pior. 

Foi em uma dessas noites que, subitamente, sentiu-se entre dois planos, e não sabia como dar nome àquela realidade que não era bem realidade. Não sabia se estava emerso em mais um de seus cochilos, ou se ainda estava acordado travando mais uma luta contra sua insônia, que passara a ser parte de seus dias. 
Em verdade, pouco importava. Sua consciência estava em pleno funcionamento. 
Foi quando aconteceu... Aqueles raciocínios tão bem elaborados sendo soprados em seu ouvido por uma voz quase 'terapêutica'. 
No início, não deu atenção. Mas, depois das primeiras conclusões, achou genial. 

Era sobre amor
Mas como sabia que era sobre amor? Eram raciocínios livres, desconectados, sem sequer um título preestabelecido.  
Ele sabia. 
Ora, ausência de sanidade e juízo, o que mais pode ser? Era sim, era sobre amor. 
Prosseguiu... 
Pois bem! Mas era Ela? Não sabia também. Poderia ser, afinal, recebia uma carga enorme de flashes e insights todos os dias, e Ela estava presente em quase todos. Saudade já não era a palavra certa, mas ele fugia de definir, bem como de lembrar, não lhe fazia bem.
Ah, os raciocínios soprados! Eram perfeitos. Tomados por uma característica profundamente introspectiva a qual lhe agradava. 
Sua consciência lhe fizera o alerta: "você pode estar sonhando, embora eu ainda esteja aqui trabalhando, a questão é que se você acordar agora, tudo isso irá se dissipar."
Ele sabia que sua consciência não estava mentindo: eram raciocínios preciosos demais, em todos sentidos. 
Quando se deu conta de que havia abandonado essa intersecção entre planos, também se deu conta de que não conseguiria transpor em um pedaço de papel tudo aquilo que haviam lhe soprado, ainda que começasse imediatamente por meio do notebook que estava logo ali. 
Entretanto, o que mais lhe inquietava era a pergunta: 'Isso já estava dentro de mim, ou alguém, realmente, me soprou aos ouvidos?"- Quer saber? Não importa mais, fosse o que fosse, era maravilhoso. 
Foi aí que percebeu o mais importante... havia sido feliz. Obviamente, dono de uma felicidade rara da qual ninguém o invejaria, parafraseando Clarice, sua mentora espiritual. 
Mas, sim, era uma novidade de espírito.
Noite adentro refletindo sobre o ocorrido, lamentou quando pensou que os pensamentos poderiam ter sido melhores utilizados se lembrados, ou, pelo menos, lhes retirado a essência, e pudessem ter sido transcritos. Mas, segundos após, tomou conta de si novamente, abriu um sorriso bobo, e repensou a questão: iria passar, então, a aprisionar borboletas só por conta de sua beleza? - e gargalhou, timidamente, frente sua habilidade em brincar com analogias. 

Melhor assim: que sejam livres! 
Desejou com a esperança de 'recebê-las' novamente. 

Talvez fosse um breve sinal de que estava, de fato, cuidando melhor de seu jardim.