domingo, 18 de outubro de 2015

Se não fossem as minhas malas cheias de memórias
Ou aquela história que faz mais de um ano
Não fossem os danos
Não seria eu

Se não fossem as minhas tias com todos os mimos
Ou se eu menino fosse mais amado
Se não desse errado
Não seria eu

Se o fato é que eu sou muito do seu desagrado
Não quero ser chato
Mas vou ser honesto
Eu não sei o que você tem contra mim

Você pode tentar por horas me deixar culpado
Mas vai dar errado
Já que foi o resto da vida inteira que me fez assim

Se não fossem os ais
E não fosse a dor
E essa mania de lembrar de tudo feito um gravador
Se não fosse Deus
Bancando o escritor

Se não fosse o Mickey e as terças-feiras
e os ursos pandas e o andar de cima da
primeira casa em que eu morei
e dava pra chegar no morro só pela varanda se
não fosse a fome e essas crianças e esse cachorro
e o Sancho Pança se não fosse o
Koni e o Capitão Gancho
Eu não seria eu

Eu posso fazer o que quiser, 
Eu posso ser o que quiser. 
Eu posso dançar sem música.
Aliás... 
É isso que vou fazer, 
Dançar sem música! 

sábado, 25 de julho de 2015

Monólogo.

Pensar demais é uma dádiva, mas, ao mesmo tempo, uma maldição. 
Embora tenha plena convicção de que preferiria mil vezes sofrer dessa maldição, do que ser um anencéfalo voluntário. 
Os dias passam e vejo que o "tilt" está cada vez mais perto. 
Óbvio que não será por ausência de processar informações, mas por passar a não compreender como a distopia atingiu um nível tão desenvolvido, ao ponto dessa bagunça nos afetar em vários níveis. 
A esquerda e a direita nunca fizeram tanto sentido. Há uma necessidade em se separar os bois nos dias de hoje. 
Será que posso falar em sensações? Pois, no agora, o palpável nada mais é do que a trilha de um furacão. Rastros, rastros, e mais rastros... 
Enfim, um homem, em cima de um palco, pensando... Pensando alto, é claro! Se não como o público iria saber o que ele está pensando? 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O que o coração não vê a mente não toca,
Não toca. 
O que o coração está cansado de ser,

Desbota. 
Mandinga pra fazer o outro perder, 

Comigo bate e volta.
Comigo bate e quebra. 
Quem dará, quem me dera? 
Quem fará ela inteira dançar? 

sábado, 11 de julho de 2015

Diagnóstico.

"Rapaz, juro que entendo dessa tua ansiedade. 
Acho compreensível você alegar estresse, depressão, cansaço ou me dizer que a pressão sobre você só aumenta. 
Entretanto, estou convicto de que isto se resume em seu próprio remédio. 
Sei que também não anda dormindo mais, mas, tão apenas, pegando no sono. 
Se é que podemos chamar de sono, não é? Três horas inconsciente por força do péssimo hábito de exagerar em remédios. 
Não acredito que lhe direi isso, mas isso só pode lhe ser entendido como uma dádiva. 
Ampliaram seus dias, já que você não vai durar muito. Aliás, acho que você já sabia disso, assim como eu... antes de qualquer exame mais palpável. 
Tua intensidade não tem por onde escoar, rapaz. 
Teu plano de vida não é longo, e sou capaz de apostar que você nunca se imaginou na velhice. 
Pois bem! 
Caio Fernando de Abreu dizia pelas manhãs: 
(...) repito sete vezes para dar sorte: que seja doce, que seja doce, que seja doce... Assim por diante.
Recomendo que faça o mesmo, logo ao acordar, como anestésico. 
No mais, meu prognóstico será inócuo a ti. 
Mas tua vida não será inócua por aqui,
é o que dizem."

- Sabe... acho que estou curado. 
Restou apenas uma cicatriz, 
que só dói quando chove. 
Obrigado, Doutor!
Agora pode me ver a receita daquele tarja preta? 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O texto sem nome.

Então... suas noites passaram a ser torturantes. Leves cochilos de 1h ou 2h, intercalados por longos períodos desorientados. Sentia-se frustrado, pois sempre pensava no que poderia estar fazendo nesses momentos, mas nunca se preparou para orientá-los. Não perdia só os minutos, também entendia que algo em sua saúde já não era o que deveria ser. 
- Ah! Os exames estavam para chegar. Algumas respostas em meio a tantas indefinições, ainda que negativas e mornas. O que a longo prazo o fariam lhe sentir ainda pior. 

Foi em uma dessas noites que, subitamente, sentiu-se entre dois planos, e não sabia como dar nome àquela realidade que não era bem realidade. Não sabia se estava emerso em mais um de seus cochilos, ou se ainda estava acordado travando mais uma luta contra sua insônia, que passara a ser parte de seus dias. 
Em verdade, pouco importava. Sua consciência estava em pleno funcionamento. 
Foi quando aconteceu... Aqueles raciocínios tão bem elaborados sendo soprados em seu ouvido por uma voz quase 'terapêutica'. 
No início, não deu atenção. Mas, depois das primeiras conclusões, achou genial. 

Era sobre amor
Mas como sabia que era sobre amor? Eram raciocínios livres, desconectados, sem sequer um título preestabelecido.  
Ele sabia. 
Ora, ausência de sanidade e juízo, o que mais pode ser? Era sim, era sobre amor. 
Prosseguiu... 
Pois bem! Mas era Ela? Não sabia também. Poderia ser, afinal, recebia uma carga enorme de flashes e insights todos os dias, e Ela estava presente em quase todos. Saudade já não era a palavra certa, mas ele fugia de definir, bem como de lembrar, não lhe fazia bem.
Ah, os raciocínios soprados! Eram perfeitos. Tomados por uma característica profundamente introspectiva a qual lhe agradava. 
Sua consciência lhe fizera o alerta: "você pode estar sonhando, embora eu ainda esteja aqui trabalhando, a questão é que se você acordar agora, tudo isso irá se dissipar."
Ele sabia que sua consciência não estava mentindo: eram raciocínios preciosos demais, em todos sentidos. 
Quando se deu conta de que havia abandonado essa intersecção entre planos, também se deu conta de que não conseguiria transpor em um pedaço de papel tudo aquilo que haviam lhe soprado, ainda que começasse imediatamente por meio do notebook que estava logo ali. 
Entretanto, o que mais lhe inquietava era a pergunta: 'Isso já estava dentro de mim, ou alguém, realmente, me soprou aos ouvidos?"- Quer saber? Não importa mais, fosse o que fosse, era maravilhoso. 
Foi aí que percebeu o mais importante... havia sido feliz. Obviamente, dono de uma felicidade rara da qual ninguém o invejaria, parafraseando Clarice, sua mentora espiritual. 
Mas, sim, era uma novidade de espírito.
Noite adentro refletindo sobre o ocorrido, lamentou quando pensou que os pensamentos poderiam ter sido melhores utilizados se lembrados, ou, pelo menos, lhes retirado a essência, e pudessem ter sido transcritos. Mas, segundos após, tomou conta de si novamente, abriu um sorriso bobo, e repensou a questão: iria passar, então, a aprisionar borboletas só por conta de sua beleza? - e gargalhou, timidamente, frente sua habilidade em brincar com analogias. 

Melhor assim: que sejam livres! 
Desejou com a esperança de 'recebê-las' novamente. 

Talvez fosse um breve sinal de que estava, de fato, cuidando melhor de seu jardim. 

  

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Para não dizer que não falei das flores.

Refletimos muito pouco a respeito de causas e efeitos, talvez porque não (re)conheçamos nada mais além daquilo que é de efeito instantâneo. Mas, óbvio, nem sempre é assim. Às vezes os efeitos tardam, mas ouso dizer que não falham. 
Creio que nossa força, nossa vontade, nossa fé e nossa colaboração para que o perquerido ocorra, é elemento indispensável, mas não é o que determina o êxito. Não somos sensíveis, ou até mesmo atenciosos, ao ponto de perceber quais sementes andamos semeando, e como eu disse, os efeitos podem ser tardios, mas não falham. Não estou fazendo alusão a uma lei divina, ou a alguma acepção de "castigo" religioso, mas, pelo contrário, é uma lei da natureza, e que nos remete muito mais a pensar no concreto do no transcendental. 
"Basta querer", "basta dar o primeiro passo", e, pois é! Não vou negar que tudo isso é importante, e nem quero ser o Sr. Desilusão, mas a questão é que no meio do caminho havia uma pedra, e havia uma pedra no meio do caminho. Às vezes os planos não são, de fato, os sonhados. Às vezes sofremos por efeitos reflexos, ora, vivemos em sociedade! Quantas vezes não sofremos a dor do próximo, mesmo sem termos tido qualquer culpa? Quantas vezes não pagamos o preço no lugar de outra pessoa? A questão não é 'desistir já que nada depende de nós', porque interpretou muito errado quem assim entendeu, pois tudo também depende de nós, mas a questão talvez seja parar de se culpar tanto pelo que acontece além de nós, e, até mesmo, conosco. 
Tenhamos tenacidade, não nos entreguemos, e se nos for exigido 100%, façamos sempre 110%. Mas o final é a doce ilusão do alpinista, que, ao chegar ao topo, nada mais lhe cabe do que descer, e assim os objetivos se tornam sem sentido algum quando atingidos. Não se esqueça que, sim, pode haver uma pedra no meio do caminho, bem como no caminho haver uma pedra. Nem sempre atingimos aquilo que merecíamos - materialmente -. Embora algumas pedras possam ser retiradas, algumas são permanentes. Há doenças que limitam o esforço do corpo físico, há pessoas que se perdem em nosso destino e que não podemos concretizar nossos sonhos em tê-las para sempre do lado, e há uma infinidade de outros acasos a quais todos nós estamos, plenamente, passíveis de ser acometidos. 
Mas se for só pelo sucesso, pela conquista, pelo objetivo... mas não por toda jornada, que você se abdica tanto, que você se esforça tanto, que você entrega seus preciosos minutos de descanso: se poupe desse final desastroso. 
Sempre haverá direção para quem quiser um caminho, e ao que importa ao final? O prêmio ou o castigo? Não seja pequeno. 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Às avessas..

Em uma linha cronológica, não consigo marcar, sequer, onde tudo se perdeu. 
Quem diria! Logo eu. Alvo de uma peça muito bem pregada pelo destino impregnado por tantas certezas. 
Cara, onde tudo se perdeu?
Autoconfiança demais, talvez. Mas se não a tivesse, quem a teria por mim? 
De monólogos transcendo a vida, tentando compreender o que deu tão errado, e o porquê não poderia/deveria de ter dado certo. 
Outra noite que se vai. 
Quem dera a febre fosse o único motivo de tanto incômodo. 
Eu sei, eu sei, eu sei, eu sei... Mas não está sendo fácil colaborar daqui. 
Prometo hoje, mas amanhã já não sei de mais nada. Memória seletiva de uma cabeça que resolveu tornar-se incapaz de controlar um corpo. 
Talvez o 10 tenha chego, de fato. 
Nesse momento não há tantos infinitos entre 0 e 1. 
Ajuda-te. 
Uma noite na lua resolveria nosso problema. 

terça-feira, 12 de maio de 2015

"Quando você chega à Emergência de um hospital, uma das primeiras coisas que eles pedem é que você dê uma nota para a sua dor numa escala de um a dez. A partir daí eles decidem que medicamentos prescrever e a velocidade com que têm de ser administrados. Passei por essa situação centenas de vezes no decorrer dos anos, e me lembro de uma vez, logo no início, em que eu não estava conseguindo respirar e parecia que meu peito pegava fogo, as chamas lambendo meu tórax por dentro, tentando encontrar um jeito de sair e queimar o lado de fora, e meus pais me levaram para a Emergência. Uma enfermeira me perguntou sobre a dor e eu não conseguia nem falar, então mostrei nove dedos.
Depois, quando eles já tinham me dado alguma coisa, a enfermeira voltou e ficou meio que acariciando minha mão enquanto media a minha pressão arterial, então disse: 'Sabe como eu sei que você é guerreira? Você chamou um dez de nove.‛
Mas não foi exatamente o que aconteceu. Eu chamei aquilo de nove porque estava poupando o meu dez. E aqui estava ele, o grande e terrível dez me açoitando sem parar(...)"


Onde está seu coração, ali estará também o seu tesouro... 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A Teoria de Tudo.

Dessa vez não bastou fechar os olhos por alguns instantes. 
Precisei apagar as luzes, desligar o som... e de repente um estalo.
Como sempre, em um monólogo, perguntei: "o que havia acontecido?" 
A resposta não tardou: "você desmaiou, nós te socorremos e trouxemos para cá."
Meu Deus, mas eu tenho pressa!! Olhe o relógio, já batem ponteiros para lá da minha hora de entrar em ação. 
Doce ilusão!
Como dizia Clarice, "mente-se e cai na verdade". 
Tudo não passara de uma mentira, de uma verdade inventada, de uma casa sem teto - ainda que pudesse ser de vidro.  
Ah, menino da mansarda! Você encontrou, finalmente, a zona instransponível: o limite das coisas que vivem. 
Ofereceu-se o caminho das pedras, mas você acordou e quis a Via Láctea toda. Pobre menino da mansarda!
Como é descobrir que fez tudo e ao mesmo tempo nada fez? Ora, logo chegará a hora de jogar os dados novamente, mas, por ora, retorne duas casas. Fôlego! 
Cambalear é espécie do gênero andar. Escolha outra, você merece mais, você pode mais, você sabe, e o mais importante, você sabe que todo potencial está aí: guardado. Não há maiores problemas que o tempo não se preste a lhe auxiliar, contudo, torno a dizer: fôlego! 
Você nunca foi de se acomodar, pelo contrário, é um chato de galocha! Qual preocupação? Se acalme, pois em nosso barco não há mais espaço para os preocupados demasiados. "Sê todo em cada coisa, nada teu exagera ou exclui", mas, não, preocupação, tu tiras daqui para nunca mais. 
O limite não é uma barreira de concreto, menino da mansarda! É apenas um cone no meio do caminho, qual nos irresignamos e o removemos. 
Deixa pra lá a Via Láctea, temos coisas mais importantes para fazer por aqui. 
E agora que você sabe disso, que tal lhe servir o "muito do pouco" ao invés (e revés) do "pouco do muito"? 
Sabia que gostaria da ideia!
Vamos. Temos mapa. Não precisamos de carona, e quem (e o quê) ficou pelo caminho, paciência.  

terça-feira, 24 de março de 2015

As duas tragédias.

Certa vez escreveu Oscar Wilde, "Há duas tragédias na vida dos homens: não conseguir o que se quer, e a outra é conseguir." Vivemos de momentos, e o mesmo ponto de interrogação pode não ter o mesmo sentido para sempre. De quando em quando, adoto algumas frases para os meus momentos, e todas elas caem como uma luva. Oscar Wilde, no momento, nunca me fez tanto sentido. Vivo dizendo: "o ponto de chegada é mera ilusão do alpinista", o que importa é o meio. Pois é, a tragédia mais perigosa que se pode atingir na vida humana e social: a conquista. Atingir um objetivo é o mesmo que fazer dele um algo sem nenhum sentido. Não atingir é frustrante, mas desconsidero como tragédia. Quem sabe não tentar mais uma vez? Quem não apurar a técnica e vencer com mais mérito? Não alcançar é sinônimo de que a vida continua, pois não é fácil eleger novas metas todos os dias. Concordo com Wilde, conseguir é uma tragédia. Aos ambiciosos a dor é ainda maior, à estes, conseguir é ainda pior: é sinal de que todas barreiras foram ultrapassadas, e não há mais o que dite um caminho para esse tipo de homem. Aquele que perde sua ambição, perde também o seu coração. Perde sua fé, seu amor por viver, suas paixões... acreditem: não há nada mais autodestrutivo do que seguir sem fé nenhuma, ainda que ela esteja no seu corpo.  

Não consigam!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Você só descobre novos caminhos quando muda a direção!

Ao passo de dar seguimento na compreensão da importância de se estabelecer um contrato com a diversidade de formas e conteúdos, me ocorre que escrever, talvez, seja uma das terapias mais eficientes, e pouco desenvolvida nesse ano que se passou. Corro para cá quando percebo que há muitos pensamentos e não há como se 'passar a régua' e fechar uma conta. Aliás, nada fecha. Um imenso aglomerado de valores e palavras inefáveis que, por própria imposição do termo, fogem da possibilidade de descrição por meio de palavras. 'Vício de linguagem', diria à técnica em diálogo com a razão, e em resposta, diria a razão - 'vai muito bem, obrigada, mas é só o que tem para mim?' -, e um silêncio ensurdecedor se estabeleceria novamente. 

Tomado pela censura de quem já disse demais (até aqui!) e teve de pagar uma conta alta, é que percebo, no silêncio, quantas justificações estavam emersas entre as extremidades da corda. Parafraseando a mim mesmo: é complicado viver a dubiedade de ser o próprio psicanalista e o paciente, ainda mais com um advogado no meio. Nesse compasso, tenho de estabelecer, à nível de uma 'quase-metalinguagem', aquilo que não me deixa alcançar a paz: uma ciência de mim mesmo que, também, pelo termo, importa o problema com contradições. O consciente dá execução, e o inconsciente faz sentir. No meio desse fogo cruzado entre agir e sentir, pergunto o porquê de sempre haver um sentimento negativo para cada ação positiva, e onde foi parar toda a 'mansarda' de Lisbon Revisted em Fernando Pessoa. Pois, ao que pese, só restou o "não me peguem pelo braço, já disse que não gosto que me peguem pelo braço". 

De fato, Hamelet estava coberto de razão: A ficção bem como os bobos dos palácios devem dizer a verdade que não pode ser dita. É um nível de abstração perigoso tentar explicar algo por esses meios. Nunca se sabe quando saímos dos trilhos e caímos no incompreensível, aliás, nunca sabemos se queremos, de verdade, explicar algo à alguém. Pois, quando escrevo, não tenho finalidade de saldar qualquer "dívida-explicativa" a qual não tenha assumido, e muito menos a de publicar uma 'carta ao leitor'. 

Clarice morreu como hermética e prolixa, e só muito depois lhe foi devolvida à condição de 'genialidade' que dela foi roubada, deixando-a só, ou melhor, em companhia da depressão. Nietzsche, depois de enlouquecer seu próprio médico, morreu como louco, e até hoje não sabemos se somos o futuro que o compreenderia (mas a soberba característica peculiar da atualidade diz que "sim"). 

Olho para dentro e procuro por respostas para as perguntas que nem deveriam ser feitas, mas quem me responde, por óbvio, não é meu consciente - que é uma autodefesa poderosa -, mas, sim, o inconsciente (ou submerso pensador incompreendido). Aí é quando cada comportamento recebe seu padrão e, ao mesmo tempo, cada pergunta respondida é, friamente, justificada com argumentos irrefutáveis. Você se compreende, aprende a aceitar como vem conduzindo tudo, e vê que saindo do lado psicológico logo o comando é assumido por aquilo que transcende e atinge o lado espiritual. Percebe que o mundo gira, e que você não sabe mais se está em cima ou em baixo, em declínio ou em ascensão. A vida se torna uma eterna oscilação de sentimentos e direções. Mas para quem já usou e abusou da droga da ambição, da força de vontade e do desafio, o morno é a morte. 

Dizia o Gato à Alice: 'se você não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve' (e a questão não é um fim, mas um meio: o fim pouco importa). Seria um período estéreo de objetivos? Seria esse o problema? Àquele que nunca se viu limitado, somente enxerga que não é possível quando não quer, realmente, alcançar aquele algo. Pois se quisesse, nada vos seria impossível. Alguns falam em fé, mas eu prefiro chamar de 'causalidade' (ainda que em uma definição particular). 

A censura, a quem devo a contabilidade de minhas palavras jogadas ao vento a partir de então, me diz que eu devo encerrar aqui. Me diz, também, para não colocar um ponto final, e para repetir comigo mesmo algumas vezes em voz alta: 'que venha o que vier, o que tiver que vir, ou que não venha'. 

"A única coisa que posso fazer
pela sorte
é que ela me encontre trabalhando."
(Pablo Picasso)