'Sobre serpente e víbora andarás;
calçarás aos pés o leão e o dragão.'
- Salmo 90.
Enfim, 2011.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
... é essa maldita pressa, ânsia, desespero em reafirmar os valores que conduzem nossa vida, sempre conduziram... e parar agora para perguntar ao cocheiro “aonde nos conduz?” só vai nos fazer colocar a cabeça para fora e trazer a angústia de enxergar as inúmeras encruzilhadas que ele ignora em seu percurso. Como se notar o equívoco durante o percurso tirasse todo o sentido da jornada até agora. Se a jornada estiver bem mais próxima do fim que do começo, então...
Todo sentido de uma vida!
O caminho de praxe já estava impregnado de certezas. O destino era certo. Tão certo que, outro, já não enxergava. Nem as encruzilhadas, nem nada além.
Lembrei-me, então, de fechar os olhos...
O Livro Sem Nome, F.V.K.
Todo sentido de uma vida!
O caminho de praxe já estava impregnado de certezas. O destino era certo. Tão certo que, outro, já não enxergava. Nem as encruzilhadas, nem nada além.
Lembrei-me, então, de fechar os olhos...
O Livro Sem Nome, F.V.K.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou
Há quem diga que eu não sei de nada
Que eu não sou de nada e não peço desculpas
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
E que Durango Kid quase me pegou
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender
Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos nisso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero todo mundo nesse carnaval...
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender.
Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua, Monobloco.
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou
Há quem diga que eu não sei de nada
Que eu não sou de nada e não peço desculpas
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
E que Durango Kid quase me pegou
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender
Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos nisso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero todo mundo nesse carnaval...
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender.
Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua, Monobloco.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Quando eu abrisse os olhos novamente, deveria ser tudo diferente. Deveria manter a consciência que tenho hoje, pois precisava me lembrar da razão de se fechar os olhos; mas precisava de olhos novos, pois precisava esquecer os vícios do olhar.
Os vícios... Como me livraria deles?
Foi quando comecei a me despir. De tudo. Óculos, meias, carapuças e até dos filtros solares. Tudo que não era meu, não era vivo, não era carne, pêlos, dentes e unhas (talvez me livrasse um pouco das unhas também). Tudo que me puseram, mesmo que tenha sido para abrigar do frio. Já não bastava a sensação térmica que a roupa intermediava, não bastava a gripe, o termômetro: era preciso conhecer o frio nu.
E foi de tanto me despir, e não haver mais o que ser despido, é que encontrei esse anônimo incógnito. Estava lá, perdido, sufocado, de olhos arregalados.
Sim, era ele. Era eu. Seria eu se não fosse todo o resto.
Anônimo, incógnito e nu.
Olhei para ele.
Ele olhou para mim...
E olhou para mim...
E olhou para mim...
E nunca lhe era mesma coisa. Era sempre além...
Tão além que o senti no meu âmago... e logo o senti mais dentro... dentro de algo que só me dei conta de que havia ali porque o senti... E ele seguiria, se não tivesse lhe pedido para parar...
Parar onde?!
Dei-me conta de que ele não parava, pois as coisas não lhe tinham final. Tudo se conectava, prosseguia, nada lhe soava categórico. Se lhe desse um ponto final para colocar, ele hesitaria até o final da vida com aquele ponto final na mão.
Então lhe dei reticências...
Fiz-lhe um topete e botei-lhe sapatos vermelhos, pois agradaram aos novos olhos diante o espelho. E me fui, seguindo os fogos.
O Livro Sem Nome, F.V.K.
Os vícios... Como me livraria deles?
Foi quando comecei a me despir. De tudo. Óculos, meias, carapuças e até dos filtros solares. Tudo que não era meu, não era vivo, não era carne, pêlos, dentes e unhas (talvez me livrasse um pouco das unhas também). Tudo que me puseram, mesmo que tenha sido para abrigar do frio. Já não bastava a sensação térmica que a roupa intermediava, não bastava a gripe, o termômetro: era preciso conhecer o frio nu.
E foi de tanto me despir, e não haver mais o que ser despido, é que encontrei esse anônimo incógnito. Estava lá, perdido, sufocado, de olhos arregalados.
Sim, era ele. Era eu. Seria eu se não fosse todo o resto.
Anônimo, incógnito e nu.
Olhei para ele.
Ele olhou para mim...
E olhou para mim...
E olhou para mim...
E nunca lhe era mesma coisa. Era sempre além...
Tão além que o senti no meu âmago... e logo o senti mais dentro... dentro de algo que só me dei conta de que havia ali porque o senti... E ele seguiria, se não tivesse lhe pedido para parar...
Parar onde?!
Dei-me conta de que ele não parava, pois as coisas não lhe tinham final. Tudo se conectava, prosseguia, nada lhe soava categórico. Se lhe desse um ponto final para colocar, ele hesitaria até o final da vida com aquele ponto final na mão.
Então lhe dei reticências...
Fiz-lhe um topete e botei-lhe sapatos vermelhos, pois agradaram aos novos olhos diante o espelho. E me fui, seguindo os fogos.
O Livro Sem Nome, F.V.K.
Faço o possível para escrever por acaso. Eu quero que a frase aconteça. Não sei expressar-me por palavras. O que eu sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio. Expressar-me por meio de palavras é um desafio. Mas não correspondo à altura do desafio. Saem pobres palavras.
A Paixão Segundo G.H, Clarice Lispector, pág. 87, Ed. Rocco.
Sei bem o que você sentia.
A Paixão Segundo G.H, Clarice Lispector, pág. 87, Ed. Rocco.
Sei bem o que você sentia.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Essa inquietude é o sentimento que eu mais odeio. E eu sei o porque dessa visita, mas eu prometi: de novo nunca mais. Aprendi a sair mais cedo, não sem dor.
De jeito nenhum que a subjetividade de ninguém vai tentar me provar de um 'eu' nada bom que nem sequer existe. E se quiserem acreditar: façam-o a vontade! Mas nem tentem me provar de nada, porque eu já tenho pedras na mão.
De jeito nenhum que a subjetividade de ninguém vai tentar me provar de um 'eu' nada bom que nem sequer existe. E se quiserem acreditar: façam-o a vontade! Mas nem tentem me provar de nada, porque eu já tenho pedras na mão.
Sinto que as pessoas se perdem quando pensam na felicidade como um destino. Estamos sempre pensando que um dia seremos felizes. Teremos aquele carro ou aquele emprego ou a pessoa de nossas vidas que vai resolver tudo. Mas a felicidade é um estado. É uma condição, não um destino. É como estar cansado ou com fome. Não é permanente. Isso vai e volta e está tudo certo. Sinto que se as pessoas pensassem isso dessa forma, elas encontrariam a felicidade muito mais vezes. Felicidade é um estado, e não um destino.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Sim, é verdade, estou feliz. Mas isso não significa que não deva ohar pros lados e que precise acordar todo dia à mesma hora.
Sim, a princípio, nada me falta. Mas não preciso viver em função disso, deixar de querer um pouco mais e trocar os meus desejos por outros que não lembro agora.
Sim, que me conste: eu estou bem. Mas o espelho não é o mesmo todo dia, já não gosto tanto assim dos meus desenhos e hoje não vou comprar morangos, e sim abacates, uvas e amoras.
Sim, pra que negar? Estou alegre. Mas não vou me conformar com calmantes, nem me embriagar de satisfação. Não quero a morte lenta, exijo a renovação.
A mim a santa paz não devora.
Poesia Reunida, Martha Medeiros.
Sim, a princípio, nada me falta. Mas não preciso viver em função disso, deixar de querer um pouco mais e trocar os meus desejos por outros que não lembro agora.
Sim, que me conste: eu estou bem. Mas o espelho não é o mesmo todo dia, já não gosto tanto assim dos meus desenhos e hoje não vou comprar morangos, e sim abacates, uvas e amoras.
Sim, pra que negar? Estou alegre. Mas não vou me conformar com calmantes, nem me embriagar de satisfação. Não quero a morte lenta, exijo a renovação.
A mim a santa paz não devora.
Poesia Reunida, Martha Medeiros.
domingo, 14 de novembro de 2010
sábado, 13 de novembro de 2010
Nas questões humanas, sabemos que "aquele que hesita está perdido", cientistas sociais falam de dissonância cognitiva", que o criador da expressão, Leon Festinger, definiu como a sensação de desconforto que sentimos ao tentar defender simultaneamente duas idéias contraditórias e a ânsia de reduzir a dissonância pela modificação ou rejeição de uma das idéias. Ela opera quando escolhemos entre objetos quase iguais e, tendo escolhido, atribuímos à nossa escolha uma grande vantagem em relação à alternativa, para que possamos ter o prazer de rejeitá-la. O processo de decisão deve fazer parte de nossa herança genética; precisamos dessa certeza nas transações humanas.
Gaia: Alerta Final, James Loverlock, pág. 52, obra original.
Que não se faça mais confusão entre dissonância cognitiva e hipocrisia generalizada.
Gaia: Alerta Final, James Loverlock, pág. 52, obra original.
Que não se faça mais confusão entre dissonância cognitiva e hipocrisia generalizada.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Deus[...] Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse pleno de tudo.
Receba em teus braços o meu pecado de pensar.
Vivo agonizando.
Oh salve-se quem puder porque para todas as horas é sempre chegada a hora. Cada instante é salve-se quem puder.
Ninguém descansa em cadeira de dentista.
Um Sopro de Vida, Clarice Lispector, pág. 152, Ed. Rocco.
E chego ao fim de mais uma obra dela. :/
Receba em teus braços o meu pecado de pensar.
Vivo agonizando.
Oh salve-se quem puder porque para todas as horas é sempre chegada a hora. Cada instante é salve-se quem puder.
Ninguém descansa em cadeira de dentista.
Um Sopro de Vida, Clarice Lispector, pág. 152, Ed. Rocco.
E chego ao fim de mais uma obra dela. :/
domingo, 7 de novembro de 2010
Chorar não resolve. Falar pouco é uma virtude. Aprender a se colocar em primeiro lugar não é egoismo. Para qualquer escolha se segue alguma consequência. Vontades efêmeras não valem a pena. Quem faz uma vez, não faz duas necessariamente, mas quem faz dez, com certeza faz onze. Perdoar é nobre, esquecer é quase impossível. Quem te merece não te faz chorar, quem gosta cuida. O que está no passado tem motivos para não fazer parte do seu presente. Não é preciso perder pra aprender a dar valor, e os amigos ainda se contam nos dedos.
Aos poucos você percebe o que vale a pena. O que se deve guardar pro resto da vida, e o que nunca deveria ter entrado nela. Não tem como esconder a verdade, nem tem como enterrar o passado, o tempo sempre vai ser o melhor remédio, mas seus resultados nem sempre são imediatos.
Charles Chaplin
Aos poucos você percebe o que vale a pena. O que se deve guardar pro resto da vida, e o que nunca deveria ter entrado nela. Não tem como esconder a verdade, nem tem como enterrar o passado, o tempo sempre vai ser o melhor remédio, mas seus resultados nem sempre são imediatos.
Charles Chaplin
sábado, 6 de novembro de 2010
Nada tá bom, nada tá certo. Nada é suficiente para me deixar satisfeito. Ando com crise de superioridade e não sei se me envergonho ou me orgulho disso. "Prepotente você, por demostrar indiferença e dispensar um elogio meu", alguém me disse. Quando penso que cheguei no meu limite, descubro que tenho que me esforçar um pouco mais. Rigoroso com tudo. Esnobe demais para demonstrar interesse em coisa alguma. Orgulhoso demais para aceitar os defeitos dos outros, indiferente demais para me apegar a sentimentalismos.
Descarado, nunca digo a verdade. Só faço confundir. Até a verdade é meio duvidosa se for dita por mim. Abuso de reticências e nunca uso um ponto final. Manipulo as pessoas a meu favor. Não estou nem aí. Egoísta demais para me preocupar com os outros.
"O mundo é dos espertos", alguém me disse. Não, o mundo é dos otários, respondi.
Minha cabeça ferve de pensamentos obscuros. Cheguei a morder meu braço até ficar roxo, pelo simples prazer de sentir dor.
Ninguém tem paciência comigo, ficam muito cansados com as minhas conversas porque eu não dou sussego um minuto sequer, não consigo relaxar. Estou sempre questionando tudo, fugindo do óbvio, duvidando dos fatos. Perfeccionista, insuportável!
Eu que sempre critiquei pessoas desse tipo, estou me tornando uma?
O silêncio nunca me incomodou tanto. Quero gritar ao mundo todo o que guardo entalado na garganta, me jogar do mais alto pico sem ter pena de mim mesmo. E eu não tô jogando limpo, não quero saber de regras. Dispenso seu braço direito e seu ombro amigo, dispenso tudo o que vier pela metade, não quero metade de nada. Se é pra fazer, porque não faz direito? Porque não vai até o fim? Covardes, devagar, limitados, isso que são. Se intimidam com um olhar mas não sabem desvendar o que tem por trás dele. Ficam só de braços cruzados esperando que eu me prontifique a explicar as coisas. Isso me cansa profundamente. Ando "complicado demais para sua capacidade de raciocínio".
Repost. Nada mais válido!
Suellen Nara @ equilibriobambo
Descarado, nunca digo a verdade. Só faço confundir. Até a verdade é meio duvidosa se for dita por mim. Abuso de reticências e nunca uso um ponto final. Manipulo as pessoas a meu favor. Não estou nem aí. Egoísta demais para me preocupar com os outros.
"O mundo é dos espertos", alguém me disse. Não, o mundo é dos otários, respondi.
Minha cabeça ferve de pensamentos obscuros. Cheguei a morder meu braço até ficar roxo, pelo simples prazer de sentir dor.
Ninguém tem paciência comigo, ficam muito cansados com as minhas conversas porque eu não dou sussego um minuto sequer, não consigo relaxar. Estou sempre questionando tudo, fugindo do óbvio, duvidando dos fatos. Perfeccionista, insuportável!
Eu que sempre critiquei pessoas desse tipo, estou me tornando uma?
O silêncio nunca me incomodou tanto. Quero gritar ao mundo todo o que guardo entalado na garganta, me jogar do mais alto pico sem ter pena de mim mesmo. E eu não tô jogando limpo, não quero saber de regras. Dispenso seu braço direito e seu ombro amigo, dispenso tudo o que vier pela metade, não quero metade de nada. Se é pra fazer, porque não faz direito? Porque não vai até o fim? Covardes, devagar, limitados, isso que são. Se intimidam com um olhar mas não sabem desvendar o que tem por trás dele. Ficam só de braços cruzados esperando que eu me prontifique a explicar as coisas. Isso me cansa profundamente. Ando "complicado demais para sua capacidade de raciocínio".
Repost. Nada mais válido!
Suellen Nara @ equilibriobambo
Quem é de verdade sabe quem é de mentira. E estou farto de tantas máscaras fora do teatro. Como se não bastasse, ainda não sabem atuar!
Que me desculpem, mas eu não vou criar um personagem e não vou atuar. Deixo isso para quem não tem o seu próprio 'eu' interessante o suficiente.
Um dia descobrem, que nunca amaram e nunca ao menos foram amados, ou sequer amaram a si mesmos. Gastaram suas vidas sendo os olhos e a boca de outra pessoa.
Tudo isso por causa de uma máscara e de sentimentos falsos. A QUE PONTO NÓS CHEGAMOS HEIN?!
Que me desculpem, mas eu não vou criar um personagem e não vou atuar. Deixo isso para quem não tem o seu próprio 'eu' interessante o suficiente.
Um dia descobrem, que nunca amaram e nunca ao menos foram amados, ou sequer amaram a si mesmos. Gastaram suas vidas sendo os olhos e a boca de outra pessoa.
Tudo isso por causa de uma máscara e de sentimentos falsos. A QUE PONTO NÓS CHEGAMOS HEIN?!
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam odio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos. Um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser pertubador, é preciso que nossos anjos e demonios sejam despertados, e com eles sua raiva, orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um musculo, o que nao faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia.
Martha Medeiros
Martha Medeiros
sábado, 30 de outubro de 2010
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
[...]
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
[...]
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
AC:
Eu tenho buscado muitas formas de me encontrar aqui, pelo menos uma coincidência entre alguma coisa, mas nada se encaixa em mim.
Como se eu tivesse mesmo em outra sintonia, eu não digo mais avançada nem menos avançada, mas diferente...
AS:
Tenho andado assim também... Eu não consigo me envolver com nada! Eu lembro que antes de eu ir embora eu fui apaixonado por muitas coisas. Me apaixonava e vivia para aquilo e era bom no que fazia por conseqüência de amar. Mas não consigo mais me achar, talvez nem nas pessoas.
AC:
É. Ter que tentar arrancar um pouco de essência o tempo todo realmente é cansativo. Mas como você disse, graças a deus, é passageiro.
AS:
O meu maior medo não é simplesmente arrancar. O meu medo é se vou conseguir essa parte de volta. Enfim, estou agoniado!
Acho que está tarde para pular fora do barco.
Ultimamente eu só tenho jogado as coisas fora. Dado sem receber nada em troca. Isso está me fazendo muito mal. Porque cada pedaço que eu jogo fora, me faz perder-me mais em mim mesmo. E para mim simplesmente perde-ser nunca foi caminho algum.
AC:
No sentido de ser ou estar? Você fala no sentido de sua parte inteligível estar sendo apagada pela carnal? Vontade, anseios?
AS:
Não propriamente. A minha parte carnal ta bem longe de algo que eu esteja no momento, considerando. É mais subjetivo.
AC:
Mas eu falo, você está se deixando levar pelas vontades e esquecendo essência?
AS:
Eu não sei. É esse vazio perdido dentro de mim que vem sendo um grande problema. Ando muito confuso. Exemplo é falta de resposta para se simplesmente estou me deixando viver, indo; ou se eu realmente estou me deixando levar por algum tipo de vontade realmente. Mas eu bem acho que que não é a vontade que vem me guiando. Acho mais ser a desorientação.
Bem aquilo que o gato disse a Alice – Se você só quer chegar a algum lugar, qualquer caminho serve.
AC:
Você busca no “nada” a explicação para tudo?
AS:
Eu não sei onde eu quero chegar ao momento. Mas não, o nada é o que eu estou sendo agora. Não estou nele buscando explicação. Está tudo muito vazio...
AC:
Então sinta-se feliz. Eu estou buscando qualquer coisa a explicação pra tudo.
AS:
Nenhum de nós dois vai conseguir.
AC:
É. Eu queria saber quem eu estou agora... Acho que só assim saberia o que eu quero!
AS:
Mas se você souber você já vai estar outra.
AC:
É! Isso! Isso o que eu quero. Não viver apenas para saciar minhas vontades de estar viva.
AS:
Entendi. Não se entregue!
É complicado esperar por um despertar que a gente não crê que aconteça...
AC:
Ainda mais quando esperamos do mundo isso.
AS:
Embora falem que exista, acho muito difícil despertar sozinho. A prova disso é que a gente tenta se achar em tudo, como você disse, em qualquer coisa, e a gente erra. Porque o nosso é estar é o desespero.
AC:
Isso me lembra muito a agonia para Sartre. Ele descrevia tudo o que eu sinto.
Eu não procuro nada nas almas que eu já reconheço.
AS:
É, seria realmente perda de tempo. Até porque o estar agora é a soma.
AC:
Isso!
[...]
AC:
... mas não tive raiva ainda, para escrever.
AS:
Minha inspiração ultimamente tem saído mais da ausência de sentimentos do que propriamente a presença deles.
AC:
Só sem sentimentos a gente consegue pensar né?
AS:
A gente é um pouco mais imparcial, mas eu consigo entender o que Clarice costuma dizer nas obras quando menciona que precisa estar morta para escrever. É exatamente isso! Sem sentimentos, ninguém vive, sente-se morto... Pelo menos é uma escrita imparcial.
Mas quem gosta de ficar morto muito tempo?
AC:
Mesmo! Por isso o ser humano é meio chato às vezes. Tomara que o paraíso seja ser divino.
AS:
É. Vivemos tempos difíceis.
_
Estende a corda, Anjo. Joga migalhas.
Não vamos perder no agora aquilo que já se veio de outros estares.
Se fragmentar faz parte.
Aquele que sair por último do labirinto é mulher do Padre.
A essência a nós nunca vai ser prêmio de nada. Ela é prova e conquista, a todas as fases.
Um grande beijo minha querida amiga.
Eu tenho buscado muitas formas de me encontrar aqui, pelo menos uma coincidência entre alguma coisa, mas nada se encaixa em mim.
Como se eu tivesse mesmo em outra sintonia, eu não digo mais avançada nem menos avançada, mas diferente...
AS:
Tenho andado assim também... Eu não consigo me envolver com nada! Eu lembro que antes de eu ir embora eu fui apaixonado por muitas coisas. Me apaixonava e vivia para aquilo e era bom no que fazia por conseqüência de amar. Mas não consigo mais me achar, talvez nem nas pessoas.
AC:
É. Ter que tentar arrancar um pouco de essência o tempo todo realmente é cansativo. Mas como você disse, graças a deus, é passageiro.
AS:
O meu maior medo não é simplesmente arrancar. O meu medo é se vou conseguir essa parte de volta. Enfim, estou agoniado!
Acho que está tarde para pular fora do barco.
Ultimamente eu só tenho jogado as coisas fora. Dado sem receber nada em troca. Isso está me fazendo muito mal. Porque cada pedaço que eu jogo fora, me faz perder-me mais em mim mesmo. E para mim simplesmente perde-ser nunca foi caminho algum.
AC:
No sentido de ser ou estar? Você fala no sentido de sua parte inteligível estar sendo apagada pela carnal? Vontade, anseios?
AS:
Não propriamente. A minha parte carnal ta bem longe de algo que eu esteja no momento, considerando. É mais subjetivo.
AC:
Mas eu falo, você está se deixando levar pelas vontades e esquecendo essência?
AS:
Eu não sei. É esse vazio perdido dentro de mim que vem sendo um grande problema. Ando muito confuso. Exemplo é falta de resposta para se simplesmente estou me deixando viver, indo; ou se eu realmente estou me deixando levar por algum tipo de vontade realmente. Mas eu bem acho que que não é a vontade que vem me guiando. Acho mais ser a desorientação.
Bem aquilo que o gato disse a Alice – Se você só quer chegar a algum lugar, qualquer caminho serve.
AC:
Você busca no “nada” a explicação para tudo?
AS:
Eu não sei onde eu quero chegar ao momento. Mas não, o nada é o que eu estou sendo agora. Não estou nele buscando explicação. Está tudo muito vazio...
AC:
Então sinta-se feliz. Eu estou buscando qualquer coisa a explicação pra tudo.
AS:
Nenhum de nós dois vai conseguir.
AC:
É. Eu queria saber quem eu estou agora... Acho que só assim saberia o que eu quero!
AS:
Mas se você souber você já vai estar outra.
AC:
É! Isso! Isso o que eu quero. Não viver apenas para saciar minhas vontades de estar viva.
AS:
Entendi. Não se entregue!
É complicado esperar por um despertar que a gente não crê que aconteça...
AC:
Ainda mais quando esperamos do mundo isso.
AS:
Embora falem que exista, acho muito difícil despertar sozinho. A prova disso é que a gente tenta se achar em tudo, como você disse, em qualquer coisa, e a gente erra. Porque o nosso é estar é o desespero.
AC:
Isso me lembra muito a agonia para Sartre. Ele descrevia tudo o que eu sinto.
Eu não procuro nada nas almas que eu já reconheço.
AS:
É, seria realmente perda de tempo. Até porque o estar agora é a soma.
AC:
Isso!
[...]
AC:
... mas não tive raiva ainda, para escrever.
AS:
Minha inspiração ultimamente tem saído mais da ausência de sentimentos do que propriamente a presença deles.
AC:
Só sem sentimentos a gente consegue pensar né?
AS:
A gente é um pouco mais imparcial, mas eu consigo entender o que Clarice costuma dizer nas obras quando menciona que precisa estar morta para escrever. É exatamente isso! Sem sentimentos, ninguém vive, sente-se morto... Pelo menos é uma escrita imparcial.
Mas quem gosta de ficar morto muito tempo?
AC:
Mesmo! Por isso o ser humano é meio chato às vezes. Tomara que o paraíso seja ser divino.
AS:
É. Vivemos tempos difíceis.
_
Estende a corda, Anjo. Joga migalhas.
Não vamos perder no agora aquilo que já se veio de outros estares.
Se fragmentar faz parte.
Aquele que sair por último do labirinto é mulher do Padre.
A essência a nós nunca vai ser prêmio de nada. Ela é prova e conquista, a todas as fases.
Um grande beijo minha querida amiga.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.
Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu.
Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu.
domingo, 17 de outubro de 2010
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
As vezes me dá uma vontade de chorar. Chorar pelas oportunidades perdidas, pelas escolhas erradas, pelas palavras desperdiçadas, pelo tempo que não volta mais. As vezes me dá vontade de matar o mundo, só para ter aquela sensação completa de vazio e esgotar de vez qualquer chance de sobrevivência. Mas tem dias que me dá vontade de ver o sol. De sentir o sol queimar levemente a minha pele, esquentar o meu corpo, refletir seu brilho nas pessoas. Tem dias que me dá vontade de me apaixonar por todo mundo. Homens, mulheres, crianças, animais. Me dá uma ânsia louca de aprender tudo. De uma única vez. Engolir as palavras, devorar os mais belos sentimentos e desfrutar num gole só a ilusão de ser perfeito.
Mas aí vem a dúvida: será que ser perfeito é bom? Fazer as coisas sempre certas, não ter lágrimas para demonstrar o arrependimento, as frustrações. Encontrar as pessoas certas, nos lugares certos. Ter na ponta da língua todo o dicionário dos bons costumes e das regras de etiquetas. Pensando bem eu gosto do choro. Daquele choro selvagem que faz a gente esmurrar as paredes. Porque um dia, querendo ou não, a gente ri da tristeza. A gente debocha dos soluços e fala com um amigo qualquer: você lembra? Eu quero permanecer assim. Cheio de contrastes, de antagonismos, de momentos de paz e momentos de guerra. Eu quero ser esse guerreiro.
Que pra acalmar as coisas precisa matar. Que precisa tirar sangue de alguém para se manter limpo. Ou que precisa se sujar com o próprio sangue para evitar ver o sangue de outrem jorrar. Eu preciso me manter louco, porque os loucos sabem das coisas. Ou não sabem de nada. Eu só sei que eu não quero saber. Eu dispenso as fórmulas, as leis, os números. Eu dispenso tudo que não nasça de mim. Que não brote de dentro de mim, como água desesperada que procura qualquer buraco para encher. Eu quero ser como água. Limpa, transparente, fonte de energia, mas que quando se rebela é capaz de inundar o mundo. Eu não quero ser bom nem mau. Eu não quero ser um “achado” pra ninguém. Eu quero que você me ache em uma esquina qualquer, de uma rua sem nome, de uma cidade perdida. Eu quero alimentar as minhas mágoas só pra depois deixa-las morrer de fome. Eu quero o prazer. Nem que pra isso você tenha que sofrer. E se isso não te agradar pegue suas coisas e saia correndo. Corra sem olhar pra trás. Eu aviso antes. Eu te dou a passagem. Eu pago o trem. Eu não cobro nada. Vá de uma vez, porque hoje eu só preciso de mim. Exclusivamente de mim e de todos os loucos que em mim habitam. Hoje eu só preciso do mundo. Do mundo que eu desenhei, mas que a qualquer momento pode ser substituído por outro!
Divinópolis, 20/05/2010 - André Palestini Gontijo.
Mas aí vem a dúvida: será que ser perfeito é bom? Fazer as coisas sempre certas, não ter lágrimas para demonstrar o arrependimento, as frustrações. Encontrar as pessoas certas, nos lugares certos. Ter na ponta da língua todo o dicionário dos bons costumes e das regras de etiquetas. Pensando bem eu gosto do choro. Daquele choro selvagem que faz a gente esmurrar as paredes. Porque um dia, querendo ou não, a gente ri da tristeza. A gente debocha dos soluços e fala com um amigo qualquer: você lembra? Eu quero permanecer assim. Cheio de contrastes, de antagonismos, de momentos de paz e momentos de guerra. Eu quero ser esse guerreiro.
Que pra acalmar as coisas precisa matar. Que precisa tirar sangue de alguém para se manter limpo. Ou que precisa se sujar com o próprio sangue para evitar ver o sangue de outrem jorrar. Eu preciso me manter louco, porque os loucos sabem das coisas. Ou não sabem de nada. Eu só sei que eu não quero saber. Eu dispenso as fórmulas, as leis, os números. Eu dispenso tudo que não nasça de mim. Que não brote de dentro de mim, como água desesperada que procura qualquer buraco para encher. Eu quero ser como água. Limpa, transparente, fonte de energia, mas que quando se rebela é capaz de inundar o mundo. Eu não quero ser bom nem mau. Eu não quero ser um “achado” pra ninguém. Eu quero que você me ache em uma esquina qualquer, de uma rua sem nome, de uma cidade perdida. Eu quero alimentar as minhas mágoas só pra depois deixa-las morrer de fome. Eu quero o prazer. Nem que pra isso você tenha que sofrer. E se isso não te agradar pegue suas coisas e saia correndo. Corra sem olhar pra trás. Eu aviso antes. Eu te dou a passagem. Eu pago o trem. Eu não cobro nada. Vá de uma vez, porque hoje eu só preciso de mim. Exclusivamente de mim e de todos os loucos que em mim habitam. Hoje eu só preciso do mundo. Do mundo que eu desenhei, mas que a qualquer momento pode ser substituído por outro!
Divinópolis, 20/05/2010 - André Palestini Gontijo.
Não estou - espero - me julgando com excesso de imparcialidade. mas preciso ser um pouco imparcial senão sucumbo e me enredo na minha forma patética de viver. Aliás fisicamente tenho algo de patético: meus olhos grandes são infantilmente interrogativos ao mesmo tempo em que parecem pedir alguma coisa e meus lábios estão sempre entreabertos como se fica diante de uma surpresa ou então como quando o ar que se respira pelo nariz é insuficiente e então se respira pela boca: ou então como ficam os lábios quando estão prestes a serem beijados. Eu sou, sem ter consciência disso,uma armadilha.
Apesar de sagaz, não compreendo realmente o que está me acontecendo. E o mundo a me exigir decisões para as quais não estou preparado. Decisões não só a respeito de provocar o nascimento de fatos mas também decisões sobre a melhor forma de ser.
Uma tensão de corda de violino.
Eu não compreendo o meu passado mais remoto, a infância e a adolescência que vive sem compreender e sem prestar atenção. Era um avoado. Agora sem o mínimo de apoio na base inicial de minha vida sou solto e periclitante e os acontecimentos vêm a mim como algo sempre descontínuo, não ligados a uma compreensão anterior à qual esses acontecimentos deviam ser uma sucessão inteligível. Mas não: os acontecimentos parecem não ter causa em mim. Eu não entendo propriamente o que me acontece. E meu ponto de vista em relação às honras é primário.
Por que quero fazer de mim um herói? Eu na verdade sou um anti-heroico. O que me atormenta é que tudo é "por enquanto", nada é "sempre". A vida - a partir do momento em que se nasce - é guiada, idealizada pelo sonho. Eu não planejo, eu dou um salto no escuro e mastigo trevas, e nessas trevas às vezes vejo o faiscar luminoso e puro de três brilhantes que não são comíveis. Então subo à tona com um brilhante em cada pupila dos olhos para transpassar o opaco do mundo e outro entre os lábios semicerrados para quando eu falar minhas palavras sejam cristalinas, duras e ofuscantes.
Um Sopro de Vida, Clarice Lispector, págs. 88 e 89, Ed. Rocco.
Apesar de sagaz, não compreendo realmente o que está me acontecendo. E o mundo a me exigir decisões para as quais não estou preparado. Decisões não só a respeito de provocar o nascimento de fatos mas também decisões sobre a melhor forma de ser.
Uma tensão de corda de violino.
Eu não compreendo o meu passado mais remoto, a infância e a adolescência que vive sem compreender e sem prestar atenção. Era um avoado. Agora sem o mínimo de apoio na base inicial de minha vida sou solto e periclitante e os acontecimentos vêm a mim como algo sempre descontínuo, não ligados a uma compreensão anterior à qual esses acontecimentos deviam ser uma sucessão inteligível. Mas não: os acontecimentos parecem não ter causa em mim. Eu não entendo propriamente o que me acontece. E meu ponto de vista em relação às honras é primário.
Por que quero fazer de mim um herói? Eu na verdade sou um anti-heroico. O que me atormenta é que tudo é "por enquanto", nada é "sempre". A vida - a partir do momento em que se nasce - é guiada, idealizada pelo sonho. Eu não planejo, eu dou um salto no escuro e mastigo trevas, e nessas trevas às vezes vejo o faiscar luminoso e puro de três brilhantes que não são comíveis. Então subo à tona com um brilhante em cada pupila dos olhos para transpassar o opaco do mundo e outro entre os lábios semicerrados para quando eu falar minhas palavras sejam cristalinas, duras e ofuscantes.
Um Sopro de Vida, Clarice Lispector, págs. 88 e 89, Ed. Rocco.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Desconforto
Nada tá bom, nada tá certo. Nada é suficiente para me deixar satisfeito. Ando com crise de superioridade e não sei se me envergonho ou me orgulho disso. "Prepotente você, por demostrar indiferença e dispensar um elogio meu", alguém me disse. Quando penso que cheguei no meu limite, descubro que tenho que me esforçar um pouco mais. Rigoroso com tudo. Esnobe demais para demonstrar interesse em coisa alguma. Orgulhoso demais para aceitar os defeitos dos outros, indiferente demais para me apegar a sentimentalismos.
Descarado, nunca digo a verdade. Só faço confundir. Até a verdade é meio duvidosa se for dita por mim. Abuso de reticências e nunca uso um ponto final. Manipulo as pessoas a meu favor. Não estou nem aí. Egoísta demais para me preocupar com os outros.
"O mundo é dos espertos", alguém me disse. Não, o mundo é dos otários, respondi.
Minha cabeça ferve de pensamentos obscuros. Cheguei a morder meu braço até ficar roxo, pelo simples prazer de sentir dor.
Ninguém tem paciência comigo, ficam muito cansados com as minhas conversas porque eu não dou sussego um minuto sequer, não consigo relaxar. Estou sempre questionando tudo, fugindo do óbvio, duvidando dos fatos. Perfeccionista, insuportável!
Eu que sempre critiquei pessoas desse tipo, estou me tornando uma?
O silêncio nunca me incomodou tanto. Quero gritar ao mundo todo o que guardo entalado na garganta, me jogar do mais alto pico sem ter pena de mim mesmo. E eu não tô jogando limpo, não quero saber de regras. Dispenso seu braço direito e seu ombro amigo, dispenso tudo o que vier pela metade, não quero metade de nada. Se é pra fazer, porque não faz direito? Porque não vai até o fim? Covardes, devagar, limitados, isso que são. Se intimidam com um olhar mas não sabem desvendar o que tem por trás dele. Ficam só de braços cruzados esperando que eu me prontifique a explicar as coisas. Isso me cansa profundamente. Ando "complicado demais para sua capacidade de raciocínio."
Está na hora de alguém me explicar as coisas, porque estou cansado de ter que entender tudo sozinho. Quero alguém que me pertube e me conforte, alguém que me bata e depois assopre, mas que não demore muito pra assoprar porque eu sei me curar muito rápido sozinho. Alguém que aperte meus braços e me sacuda com força (sim, é disso que estou falando). Quero que gritem comigo, me digam quem sou, para onde vou e o que tenho que fazer. Alguém que saiba do que eu preciso.
Quero alguém para mandar em mim, porque eu já cansei de ter que mandar nos outros.
* Talvez eu nem queira alguém. Eu quero você, só você, que insiste em me torturar ficando sempre tão longe de mim...
@ equilibriobambo.blogspot
Descarado, nunca digo a verdade. Só faço confundir. Até a verdade é meio duvidosa se for dita por mim. Abuso de reticências e nunca uso um ponto final. Manipulo as pessoas a meu favor. Não estou nem aí. Egoísta demais para me preocupar com os outros.
"O mundo é dos espertos", alguém me disse. Não, o mundo é dos otários, respondi.
Minha cabeça ferve de pensamentos obscuros. Cheguei a morder meu braço até ficar roxo, pelo simples prazer de sentir dor.
Ninguém tem paciência comigo, ficam muito cansados com as minhas conversas porque eu não dou sussego um minuto sequer, não consigo relaxar. Estou sempre questionando tudo, fugindo do óbvio, duvidando dos fatos. Perfeccionista, insuportável!
Eu que sempre critiquei pessoas desse tipo, estou me tornando uma?
O silêncio nunca me incomodou tanto. Quero gritar ao mundo todo o que guardo entalado na garganta, me jogar do mais alto pico sem ter pena de mim mesmo. E eu não tô jogando limpo, não quero saber de regras. Dispenso seu braço direito e seu ombro amigo, dispenso tudo o que vier pela metade, não quero metade de nada. Se é pra fazer, porque não faz direito? Porque não vai até o fim? Covardes, devagar, limitados, isso que são. Se intimidam com um olhar mas não sabem desvendar o que tem por trás dele. Ficam só de braços cruzados esperando que eu me prontifique a explicar as coisas. Isso me cansa profundamente. Ando "complicado demais para sua capacidade de raciocínio."
Está na hora de alguém me explicar as coisas, porque estou cansado de ter que entender tudo sozinho. Quero alguém que me pertube e me conforte, alguém que me bata e depois assopre, mas que não demore muito pra assoprar porque eu sei me curar muito rápido sozinho. Alguém que aperte meus braços e me sacuda com força (sim, é disso que estou falando). Quero que gritem comigo, me digam quem sou, para onde vou e o que tenho que fazer. Alguém que saiba do que eu preciso.
Quero alguém para mandar em mim, porque eu já cansei de ter que mandar nos outros.
* Talvez eu nem queira alguém. Eu quero você, só você, que insiste em me torturar ficando sempre tão longe de mim...
@ equilibriobambo.blogspot
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Ouça, querida – disse-lhe Otávia certa vez – não fique assim com essa mentalidade de donzela folhetinesca, não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa ... E que interessa o castigo ou o prêmio? ... Tudo muda tanto que a pessoa que pecou na véspera já não é a mesma a ser punida no dia seguinte.
Ciranda de Pedra, Lygia Fagundes Telles, pág. 82.
Ciranda de Pedra, Lygia Fagundes Telles, pág. 82.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Eu só uso o raciocínio como anestésico. Mas para a vida sou diretamente uma perene promessa de entendimento do meu mundo submerso. Agora que existem computadores para quase todo o tipo de procura de soluções intelectuais - volto-me então para o meu rico nada interior. E grito: eu sinto, eu sofro, eu me alegro, eu me comovo. Só o meu enigma me interessa. Mais que tudo, me busco no meu grande vazio.
Procuro me manter isolado contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, tão extraordinária essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num escândalo. Enquanto isso , ora estuda, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra maiúscula nada pode me dar porque vou confessar que também eu devo ter entrado por um beco sem saída como os outros. Porque noto em mim, não um bocado de fatos, e sim procuro quase tragicamente ser. É uma questão de sobrevivência assim como a de comer carne humana quando não há alimento. Luto não contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de espírito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminado vejo que estou tendo uma novidade de espírito.
Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforme num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trêmula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água. Sou um palidíssimo reflexo de erudição. Minha receptividade se afina registrando sem parar as concepções de outros refletindo no meu espelho os matizes sutis das distinções entre as coisas da vida. Eu que sou um resultado do verdadeiro milagre dos instintos. Eu sou um terreno pantanoso. Em mim nasce musgo molhado cobrindo pedras escorregadis.
Um Sopro de Vida, Clarice Lispector, págs. 46 e 47 - Ed. Rocco.
Procuro me manter isolado contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, tão extraordinária essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num escândalo. Enquanto isso , ora estuda, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra maiúscula nada pode me dar porque vou confessar que também eu devo ter entrado por um beco sem saída como os outros. Porque noto em mim, não um bocado de fatos, e sim procuro quase tragicamente ser. É uma questão de sobrevivência assim como a de comer carne humana quando não há alimento. Luto não contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de espírito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminado vejo que estou tendo uma novidade de espírito.
Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforme num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trêmula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água. Sou um palidíssimo reflexo de erudição. Minha receptividade se afina registrando sem parar as concepções de outros refletindo no meu espelho os matizes sutis das distinções entre as coisas da vida. Eu que sou um resultado do verdadeiro milagre dos instintos. Eu sou um terreno pantanoso. Em mim nasce musgo molhado cobrindo pedras escorregadis.
Um Sopro de Vida, Clarice Lispector, págs. 46 e 47 - Ed. Rocco.
domingo, 3 de outubro de 2010
Não, não pense que é sempre bom, não sou a-todo-bom, a todo alegre o tempo todo, a todo amoroso constantemente. Eu sou estranho, tenho gestos e pensamentos e encanações e neuras e filosofias viajantes e temperamento salgado, e toda uma série de e's que não consigo ajustar aqui, agora, pra você, talvez por não saber ajustá-los nem pra mim. Mas deixa isso tudo pra lá, eu e a minha estranhice, estranheza, estranhagem, estranhamento, estranhação. Estranha ação. É isso aí, sou cheio de estranhas ações. Uma delas é tentar explicar o sentido de uma coisa que nem sentido faz.
Clarissa Corrêa.
Clarissa Corrêa.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém,
mas o que te garante que você não está somente servindo
pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar
outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e
te deixe pra trás, fraco e sangrando.
Daí você espera por alguém que venha te curar.
As vezes esse alguém aparece, outras vezes, não.
Caio Fernando Abreu
mas o que te garante que você não está somente servindo
pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar
outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e
te deixe pra trás, fraco e sangrando.
Daí você espera por alguém que venha te curar.
As vezes esse alguém aparece, outras vezes, não.
Caio Fernando Abreu
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Feliz é Monalisa com aquele sorriso de preguiça. Pessoas do mundo inteiro já deram várias interpretações para aquela pintura e ela continua lá com cara de desdém. É interessante pensar que quase ninguém consegue abstrair as coisas e aceitá-las como elas são. Precisam associar o sorriso de Monalisa à teoria do big bang. O mundo vai acabar e a Monalisa vai continuar rindo da sua cara. Mas eu não sou uma pintura e do lugar onde estou já fui embora.
Suellen Nara, @equilibriobambo.
Suellen Nara, @equilibriobambo.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
O mundo me prefere com dois braços e duas pernas, mas não sei mais ser humano. Sorrir cansa. Chorar cansa. Mas o que mais cansa é procurar desesperadamente um intermediário e esquecer que o mundo é mais que aparências.
Eu sou volúvel. Grande surpresa. Mas ser volúvel também cansa. Porque ninguém leva a sério alguém que passa a semana chorando pra ficar bem na semana seguinte. Como se fosse preciso ser feliz pra sempre ou triste pra sempre pra ser alguma coisa de verdade.
Não quero mais a realidade comum. Isso é o que mais cansa, pra ser bem sincero. Tenho até arrepios de pensar num futuro escrito e óbvio nas prateleiras de gente sem sal. Só de saber o que vai ser de mim, já quero ser outra coisa. Uma coisa nova e diferente, pra quebrar o que é certo.
Eu ando tão cansado de seguir as regras. Ando tentando mudar as regras. Eu sei que o que acomoda não é fácil de mudar, mas alguém um dia tem que dizer chega, né? Pras coisas mudarem, o mundo girar. Tanta engrenagem e tão pouco suor.
Só sei que ando dedicando meus dias pra gente que nem sabe que eu existo. Vou fazer minha faculdade, conseguir meu diploma. Vou fazer o que for preciso pra nunca mais precisar fazer nada. E passar o resto da minha vida fingindo que acredito na minha liberdade.
Eu sou volúvel. Grande surpresa. Mas ser volúvel também cansa. Porque ninguém leva a sério alguém que passa a semana chorando pra ficar bem na semana seguinte. Como se fosse preciso ser feliz pra sempre ou triste pra sempre pra ser alguma coisa de verdade.
Não quero mais a realidade comum. Isso é o que mais cansa, pra ser bem sincero. Tenho até arrepios de pensar num futuro escrito e óbvio nas prateleiras de gente sem sal. Só de saber o que vai ser de mim, já quero ser outra coisa. Uma coisa nova e diferente, pra quebrar o que é certo.
Eu ando tão cansado de seguir as regras. Ando tentando mudar as regras. Eu sei que o que acomoda não é fácil de mudar, mas alguém um dia tem que dizer chega, né? Pras coisas mudarem, o mundo girar. Tanta engrenagem e tão pouco suor.
Só sei que ando dedicando meus dias pra gente que nem sabe que eu existo. Vou fazer minha faculdade, conseguir meu diploma. Vou fazer o que for preciso pra nunca mais precisar fazer nada. E passar o resto da minha vida fingindo que acredito na minha liberdade.
Entre a palavra e o pensamento existe o meu ser. Meu pensamento é puro ar impalpável, insaisisable. Minha palavra é de terra. Meu coração é vida. Minha energia eletrônica é mágica de origem divina. Meu símbolo é o amor. Meu ódio é energia atômica.
Tudo o que disse agora não vale nada, não passa de espumas.
Padecente.
Faminta e friorenta e humilhada.
Eu te recebo de pés descalços: é esta a minha humildade e esta nudez de pés é a minha ousadia.
Não quero ser somente eu mesma. Quero também ser o que não sou.
Um Sopro de Vida, Clarice Lispector, pág.51, Ed. Rocco.
Tudo o que disse agora não vale nada, não passa de espumas.
Padecente.
Faminta e friorenta e humilhada.
Eu te recebo de pés descalços: é esta a minha humildade e esta nudez de pés é a minha ousadia.
Não quero ser somente eu mesma. Quero também ser o que não sou.
Um Sopro de Vida, Clarice Lispector, pág.51, Ed. Rocco.
domingo, 26 de setembro de 2010
Quer saber o que eu penso? Você aguentaria conhecer minha verdade? Pois tome. Prove. Sinta. Eu tenho preguiça de quem não comete erros. Tenho profundo sono de quem prefere o morno. Eu gosto do risco. Dos que arriscam. Tenho admiração nata por quem segue o coração. Eu acredito nas pessoas livres. Liberdade de ser. Coragem boa de se mostrar. Dar a cara a tapa! Ser louco, estranho, chato! Eu sou assim. Tenho um milhão de defeitos. Sou volúvel.Sou viciada em gente. Adoro ficar sozinho. Mas eu vivo para sentir. Por isso, eu te peço. Me provoque. Me beije a boca. Me desafie. Me tire do sério. Me tire do tédio. Vire meu mundo do avesso! Mas, pelo amor de Deus, me faça sentir. Um beliscãozinho que for, me dê. Eu quero rir até a barriga doer. Chorar e ficar com cara de sapo. Este é o meu alimento: palavras para uma alma com fome.
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector.
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Entre as coisas mais lindas que eu conheci
Só reconheci suas cores belas quando eu te vi
Entre as coisas bem-vindas que já recebi
Eu reconheci minhas cores nela então eu me vi
Está em cima com o céu e o luar
Hora dos dias, semanas, meses, anos, décadas
E séculos, milênios que vão passar
Água-marinha põe estrelas no mar
Praias, baías, braços, cabos, mares, golfos
E penínsulas e oceanos que não vão secar
E as coisas lindas são mais lindas
Quando você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas
Porque você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas.
As Coisas Tão Mais Lindas, Nando Reis.
Só reconheci suas cores belas quando eu te vi
Entre as coisas bem-vindas que já recebi
Eu reconheci minhas cores nela então eu me vi
Está em cima com o céu e o luar
Hora dos dias, semanas, meses, anos, décadas
E séculos, milênios que vão passar
Água-marinha põe estrelas no mar
Praias, baías, braços, cabos, mares, golfos
E penínsulas e oceanos que não vão secar
E as coisas lindas são mais lindas
Quando você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas
Porque você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas.
As Coisas Tão Mais Lindas, Nando Reis.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Olha! Eu fico aqui imaginando o porque.
A inspiração, certos dias, assassina o conceito de orgulho e eu torno aos velhos vícios, manias.
E acredite: preocupo-me contigo!, desconheço o motivo, evito hipóteses. Mas eu sei que você vai se endereçar automaticamente. É uma conexão inevitável, parece algo de maternidade.
[...]
Todos nós queremos ser amados, ser felizes
Então, por que não somos?
Porque nos tornamos especialistas em sabotar nossa própria felicidade
Nos fazendo de vítimas, quando na verdade,
São as escolhas que fazemos, os maus hábitos, os vícios,
A inabilidade de demonstrar amor e compaixão
São essas coisas que nos destroem.
Não somos vitimas
Somos assassinos quando se trata de amor e felicidade.
Nós aplaudimos o sentimento..mas não mudamos.
Por quê?
Porque sabemos o que queremos.
Então, nós fazemos, dizemos, tentamos, bancamos as vítimas,
Contratamos advogados...e isso tem que parar.
É uma questão de caráter
Isso é sobre quem tem o melhor caráter
As vezes decepcionamos as pessoas com quem devemos estar,
E as vezes, as pessoas fazem coisas que sentem vergonha.
E normalmente, depois que a culpa se estabelece,
Nós pioramos as coisas.
E a verdade?
Bem, a verdade é um conceito absoluto,
E a verdade pode te libertar
O caráter mudo tudo.
Ainda torço por muito você.
A inspiração, certos dias, assassina o conceito de orgulho e eu torno aos velhos vícios, manias.
E acredite: preocupo-me contigo!, desconheço o motivo, evito hipóteses. Mas eu sei que você vai se endereçar automaticamente. É uma conexão inevitável, parece algo de maternidade.
[...]
Todos nós queremos ser amados, ser felizes
Então, por que não somos?
Porque nos tornamos especialistas em sabotar nossa própria felicidade
Nos fazendo de vítimas, quando na verdade,
São as escolhas que fazemos, os maus hábitos, os vícios,
A inabilidade de demonstrar amor e compaixão
São essas coisas que nos destroem.
Não somos vitimas
Somos assassinos quando se trata de amor e felicidade.
Nós aplaudimos o sentimento..mas não mudamos.
Por quê?
Porque sabemos o que queremos.
Então, nós fazemos, dizemos, tentamos, bancamos as vítimas,
Contratamos advogados...e isso tem que parar.
É uma questão de caráter
Isso é sobre quem tem o melhor caráter
As vezes decepcionamos as pessoas com quem devemos estar,
E as vezes, as pessoas fazem coisas que sentem vergonha.
E normalmente, depois que a culpa se estabelece,
Nós pioramos as coisas.
E a verdade?
Bem, a verdade é um conceito absoluto,
E a verdade pode te libertar
O caráter mudo tudo.
Ainda torço por muito você.
[...]
- Para que servem os espinhos?
O principezinho jamais renunciava a uma pergunta, depois que a tivesse feito. Mas eu estava irritado com o parafuso e respondi qualquer coisa:
- Os espinhos não servem para nada. São pura maldade das flores.
- Oh!
Mas, após um silêncio, ele me disse com uma espécie de rancor:
- Não acredito! as flores são fracas. Ingênuas. Defendem-se como podem. Elas se julgam terríveis com os seus espinhos...
Não respondi. naquele instante eu pensava: "Se esse parafuso ainda resiste, vou fazê-lo saltar a marteladas". O principezinho pertubou-me de novo as reflexões:
- E tu pensas então que as flores...
- Ora! eu não penso nada. Eu respondi qualquer coisa. Eu só me ocupo com coisas sérias!
Ele me olhou, estupefato:
- Coisas sérias!
Via-me, martelo em punho, dedos sujos de graxa, curvado sobre um feio objeto.
- Tu falas como as pessoas grandes!
Senti um pouco de vergonha. Mas ele acrescentou, implacável:
- Tu confundes todas as coisas... Misturas tudo!
Estava realmente muito irritado. Sacudia ao vento os cabelos de ouro:
- Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete como tu: "Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!", e isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele não é um homem, é um cogumelo!
- Um o quê?
- Um cogumelo!
[...]
O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupêry, pág. 26 (Ed. Circulo do Livro S/A)
- Para que servem os espinhos?
O principezinho jamais renunciava a uma pergunta, depois que a tivesse feito. Mas eu estava irritado com o parafuso e respondi qualquer coisa:
- Os espinhos não servem para nada. São pura maldade das flores.
- Oh!
Mas, após um silêncio, ele me disse com uma espécie de rancor:
- Não acredito! as flores são fracas. Ingênuas. Defendem-se como podem. Elas se julgam terríveis com os seus espinhos...
Não respondi. naquele instante eu pensava: "Se esse parafuso ainda resiste, vou fazê-lo saltar a marteladas". O principezinho pertubou-me de novo as reflexões:
- E tu pensas então que as flores...
- Ora! eu não penso nada. Eu respondi qualquer coisa. Eu só me ocupo com coisas sérias!
Ele me olhou, estupefato:
- Coisas sérias!
Via-me, martelo em punho, dedos sujos de graxa, curvado sobre um feio objeto.
- Tu falas como as pessoas grandes!
Senti um pouco de vergonha. Mas ele acrescentou, implacável:
- Tu confundes todas as coisas... Misturas tudo!
Estava realmente muito irritado. Sacudia ao vento os cabelos de ouro:
- Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete como tu: "Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!", e isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele não é um homem, é um cogumelo!
- Um o quê?
- Um cogumelo!
[...]
O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupêry, pág. 26 (Ed. Circulo do Livro S/A)
sábado, 18 de setembro de 2010
Eu fico com a pureza das respostas das crianças:
É a vida! É bonita e é bonita!
Viver e não ter a vergonha de ser feliz,
Cantar,
A beleza de ser um eterno aprendiz
Eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será,
Mas isso não impede que eu repita:
É bonita, é bonita e é bonita!
E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão?
Ela é a batida de um coração?
Ela é uma doce ilusão?
Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é, meu irmão?
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo,
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo,
Há quem fale que é um divino mistério profundo,
É o sopro do criador numa atitude repleta de amor.
Você diz que é luta e prazer,
Ele diz que a vida é viver,
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é, e o verbo é sofrer.
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé,
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser,
Sempre desejada por mais que esteja errada,
Ninguém quer a morte, só saúde e sorte,
E a pergunta roda, e a cabeça agita.
Fico com a pureza das respostas das crianças:
É a vida! É bonita e é bonita!
O que é, o que é?, Gonzaguinha
É a vida! É bonita e é bonita!
Viver e não ter a vergonha de ser feliz,
Cantar,
A beleza de ser um eterno aprendiz
Eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será,
Mas isso não impede que eu repita:
É bonita, é bonita e é bonita!
E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão?
Ela é a batida de um coração?
Ela é uma doce ilusão?
Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é, meu irmão?
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo,
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo,
Há quem fale que é um divino mistério profundo,
É o sopro do criador numa atitude repleta de amor.
Você diz que é luta e prazer,
Ele diz que a vida é viver,
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é, e o verbo é sofrer.
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé,
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser,
Sempre desejada por mais que esteja errada,
Ninguém quer a morte, só saúde e sorte,
E a pergunta roda, e a cabeça agita.
Fico com a pureza das respostas das crianças:
É a vida! É bonita e é bonita!
O que é, o que é?, Gonzaguinha
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui São sonhos diferentes.
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui São sonhos diferentes.
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
De Haroldo Lobo com Wilson Batista,
De Mário Lago e Ataulfo Alves,
Não canto nem Emília nem Amélia,
Nenhuma tem meus vivas! E meus salves!
E nem Angie, do stone Mick Jagger;
E nem Roxanne, de Sting, do Police;
E nem a mina do mamona Dinho
E nem as mina – pá! - do mano Xiz!
Loira de Hervê e loira do É O Tchan,
Lôra de Gabriel, o Pensador;
Laura de Mercer, Laura de Braguinha,
Laura de Daniel, o trovador;
Ana do Rei e Ana de Djavan,
Ana do outro rei, o do baião
Nenhuma delas hoje cantarei:
Só outra reina no meu coração.
Só você,
Rainha aqui é só você,
Só você,
A musa dentre as musas de A a Z.
Todas Elas Juntas Num Só Ser, Lenine.
De Mário Lago e Ataulfo Alves,
Não canto nem Emília nem Amélia,
Nenhuma tem meus vivas! E meus salves!
E nem Angie, do stone Mick Jagger;
E nem Roxanne, de Sting, do Police;
E nem a mina do mamona Dinho
E nem as mina – pá! - do mano Xiz!
Loira de Hervê e loira do É O Tchan,
Lôra de Gabriel, o Pensador;
Laura de Mercer, Laura de Braguinha,
Laura de Daniel, o trovador;
Ana do Rei e Ana de Djavan,
Ana do outro rei, o do baião
Nenhuma delas hoje cantarei:
Só outra reina no meu coração.
Só você,
Rainha aqui é só você,
Só você,
A musa dentre as musas de A a Z.
Todas Elas Juntas Num Só Ser, Lenine.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Então a coruja responde:
"Mas para onde você quer ir?", e Alice: "Eu só quero chegar a algum lugar!"
A coruja torna a responder:
"Então qualquer caminho serve."
..........................
"Nesta direção", disse o Gato, girando a pata direita, "mora um Chapeleiro. E nesta direção", apontando com a pata esquerda, "mora uma Lebre de Março. Visite quem você quiser, são ambos loucos."
"Mas eu não ando com loucos", observou Alice.
"Oh, você não tem como evitar", disse o Gato, "somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca".
"Como é que você sabe que eu sou louca?", disse Alice.
"Você deve ser", disse o Gato, "Se não, não teria vindo para cá."
Alice no País das Maravilhas.
"Mas para onde você quer ir?", e Alice: "Eu só quero chegar a algum lugar!"
A coruja torna a responder:
"Então qualquer caminho serve."
..........................
"Nesta direção", disse o Gato, girando a pata direita, "mora um Chapeleiro. E nesta direção", apontando com a pata esquerda, "mora uma Lebre de Março. Visite quem você quiser, são ambos loucos."
"Mas eu não ando com loucos", observou Alice.
"Oh, você não tem como evitar", disse o Gato, "somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca".
"Como é que você sabe que eu sou louca?", disse Alice.
"Você deve ser", disse o Gato, "Se não, não teria vindo para cá."
Alice no País das Maravilhas.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
... um fluído que me envolvia, que eu respirava pelas guelras.
Nos substratos onde a lua brilhava constante e opaca, era liso e fecundante; acima, confusa vozeria e discórdia. Em tudo eu via logo um oposto, uma contradição, e entre o real e irreal, a ironia, o paradoxo. Eu era o meu pior inimigo. Não desejava fazer nada que fosse melhor não fazer. Mesmo em criança, quando não me faltava nada, queria morrer: queria render-me porque não via sentido em lutar. Sentia que nada se provaria, consubstanciaria, somaria ou subtrairia pela continuação de uma existência que eu não pedira. Todos à minha volta eram um fracasso, ou se não, ridículos. Sobretudo os bens sucedidos. Esses me entediavam até as lágrimas. Eu era excessivamente compreensivo, mas não por simpatia. Era uma qualidade totalmente negativa, uma fraqueza que desabrochava à simples visão da infelicidade humana. Jamais ajudei a quem quer que fosse esperando que isso fizesse algum bem; ajudava porque não podia agir de outro modo. Parecia-me fútil querer mudar a condição das coisas;[...]
Henry.
Nos substratos onde a lua brilhava constante e opaca, era liso e fecundante; acima, confusa vozeria e discórdia. Em tudo eu via logo um oposto, uma contradição, e entre o real e irreal, a ironia, o paradoxo. Eu era o meu pior inimigo. Não desejava fazer nada que fosse melhor não fazer. Mesmo em criança, quando não me faltava nada, queria morrer: queria render-me porque não via sentido em lutar. Sentia que nada se provaria, consubstanciaria, somaria ou subtrairia pela continuação de uma existência que eu não pedira. Todos à minha volta eram um fracasso, ou se não, ridículos. Sobretudo os bens sucedidos. Esses me entediavam até as lágrimas. Eu era excessivamente compreensivo, mas não por simpatia. Era uma qualidade totalmente negativa, uma fraqueza que desabrochava à simples visão da infelicidade humana. Jamais ajudei a quem quer que fosse esperando que isso fizesse algum bem; ajudava porque não podia agir de outro modo. Parecia-me fútil querer mudar a condição das coisas;[...]
Henry.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Em qualquer momento que possamos viver, estamos sempre com nossa consciência no centro do tempo, nunca em suas extremidades; poderíamos portanto admitir que cada um de nós traz dentro de si o centro imóvel do tempo infinito. É isto, fundamentalmente, que nos dá a certeza de levar a nossa vida sem o pavor contínuo da morte.
Arthur Schopenhauer, Sobre a indestrutibilidade do nosso ser, pág. 143.
Arthur Schopenhauer, Sobre a indestrutibilidade do nosso ser, pág. 143.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Aos que vierem depois de nós.
Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
Bertolt Brecht, Aos que vierem depois de nós. (1949)
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
Bertolt Brecht, Aos que vierem depois de nós. (1949)
[...]
Se agora é tarde eu já vou-me embora,
fique com a saudade que te resta agora, amor.
E se um dia volte a me encontrar
me trate com respeito, sou merecedor.
E aprenda que se hoje me faz sofrer
pode ser que amanhã eu te devolva a dor.
Negue todo o seu orgulho, que eu te asseguro
nunca te deixar.
E quando estiver sozinha, que bobagem é a minha
volto a te buscar.
Chega perto do meu peito, que nosso defeito
é procurar defeito demais.
E se depois de toda essa vida não houver
partida.
Eu quero viver mais.
Falamansa, Fique Com A Saudade
1 mês! :(
Se agora é tarde eu já vou-me embora,
fique com a saudade que te resta agora, amor.
E se um dia volte a me encontrar
me trate com respeito, sou merecedor.
E aprenda que se hoje me faz sofrer
pode ser que amanhã eu te devolva a dor.
Negue todo o seu orgulho, que eu te asseguro
nunca te deixar.
E quando estiver sozinha, que bobagem é a minha
volto a te buscar.
Chega perto do meu peito, que nosso defeito
é procurar defeito demais.
E se depois de toda essa vida não houver
partida.
Eu quero viver mais.
Falamansa, Fique Com A Saudade
1 mês! :(
sábado, 14 de agosto de 2010
Avisa
Avisa, avisa, avisa, avisa
Avisa!
Se o sol brilhar de novo no horizonte
Avisa!
E pode ter certeza que eu tô lá pra ver
Avisa!
Se a liberdade te trair e precisar de alguém
Avisa!
Ou se tudo correr bem e não precisar
Avisa!
Parece até que o vento traz o sentimento
Avisa!
E ninguém faz questão de nos avisar
Avisa!
Pro vento que traz sofrimento
Que sopre pra outro lugar
Avisa!
O vento que traz amor
Não vejo a hora de você chegar.
Avisa!
Se o sol brilhar de novo no horizonte
Avisa!
E pode ter certeza que eu tô lá pra ver
Avisa!
Se a liberdade te trair e precisar de alguém
Avisa!
Ou se tudo correr bem e não precisar
Avisa!
Parece até que o vento traz o sentimento
Avisa!
E ninguém faz questão de nos avisar
Avisa!
Pro vento que traz sofrimento
Que sopre pra outro lugar
Avisa!
O vento que traz amor
Não vejo a hora de você chegar.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Parece tudo tão falso a idéia de que boas coisas acontecem para boas pessoas, que há mágica no mundo e que os mansos e justos a herdarão. Existem tantas pessoas boas que sofrem por algo assim para falar a verdade. Existem tantas orações não respondidas. Todos os dias, ignoramos como o mundo está arruinado, e dizemos a nós mesmos que tudo ficará bem. "Você vai ficar bem". Mas não está. E uma vez que se dá conta disso não há volta. Não há mágica no mundo. Pelo menos não hoje.
One Tree Hill. Cáp. 21, Sétima Temporada.
One Tree Hill. Cáp. 21, Sétima Temporada.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Pode levar, sou todo seu
descanse a caixa que esse aí sou eu
é só montar.
Se não aprendeu, o manual aqui perdeu.
Pode juntar pedaço por pedacinho
que no final vai ter amor e carinho.
É isso aí o que eu sou
quebra cabeças que ninguém montou.
E se quiser saber de mim
só não desiste antes do fim.
Pode juntar pedaço por pedacinho
que no final vai ter amor e carinho.
Se não rolar e acontecer
no coração alguma peça se perder
me magoar e me esquecer
se não rolou então não é pra ser
Pode juntar pedaço por pedacinho
e no final me devolver igualzinho.
Falamansa, Quebra-Cabeças.
descanse a caixa que esse aí sou eu
é só montar.
Se não aprendeu, o manual aqui perdeu.
Pode juntar pedaço por pedacinho
que no final vai ter amor e carinho.
É isso aí o que eu sou
quebra cabeças que ninguém montou.
E se quiser saber de mim
só não desiste antes do fim.
Pode juntar pedaço por pedacinho
que no final vai ter amor e carinho.
Se não rolar e acontecer
no coração alguma peça se perder
me magoar e me esquecer
se não rolou então não é pra ser
Pode juntar pedaço por pedacinho
e no final me devolver igualzinho.
Falamansa, Quebra-Cabeças.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Ontem no entanto perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra - como se antes eu tivesse sabido o que era! Porque é que ver é uma tal desorganização?
E uma desilsão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., texto original pág. 9.
E uma desilsão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., texto original pág. 9.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que não quero
E você vai logo ver o que acontece.
Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas.
Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade,
Tudo está perdido mas existem possibilidades.
Tínhamos a idéia, mas você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de idéia
Já passou, já passou - quem sabe outro dia.
Poemas Perdidos.
Me apego facilmente ao que desperta meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que não quero
E você vai logo ver o que acontece.
Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas.
Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade,
Tudo está perdido mas existem possibilidades.
Tínhamos a idéia, mas você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de idéia
Já passou, já passou - quem sabe outro dia.
Poemas Perdidos.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Tanto
Coveiros gemem tristes ais
E realejos ancestrais juram que
Eu não devia mais querer você
Os sinos e os clarins rachados
Zombando tão desafinados
Querem,eu sei,mas é pecado
Eu te perder
É tanto,é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto
Políticos embriagados
Dançando em guetos arruinados
E os profetas desacordados
A te ouvir
Eu sei que eles vem tomar meu
Drinque em meu copo a trincar
E me pedir pra te deixar partir
É tanto,é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto
Todos meus pais querem me dar
Amor que há tempos não está lá
E suas filhas vão me deixar
Por isso não me preocupar
Eu voltei pra minha sina
Contei pra uma menina
Meu medo só termina estando ali
Ela é suave assim
E sabe quase tudo de mim
Ela sabe onde eu
Queria estar enfim
É tanto, é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto
Mas seu dândi vai
De paletó chinês
Falou comigo mais de uma vez
Não, eu sei, não fui muito cortês
Com ele,não
Isso, porque ele mentiu, porque
Te ganhou e partiu
Porque o tempo consentiu
Ou se não porque
É tanto, é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto
É tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto
Skank, Tanto, 1998
E realejos ancestrais juram que
Eu não devia mais querer você
Os sinos e os clarins rachados
Zombando tão desafinados
Querem,eu sei,mas é pecado
Eu te perder
É tanto,é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto
Políticos embriagados
Dançando em guetos arruinados
E os profetas desacordados
A te ouvir
Eu sei que eles vem tomar meu
Drinque em meu copo a trincar
E me pedir pra te deixar partir
É tanto,é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto
Todos meus pais querem me dar
Amor que há tempos não está lá
E suas filhas vão me deixar
Por isso não me preocupar
Eu voltei pra minha sina
Contei pra uma menina
Meu medo só termina estando ali
Ela é suave assim
E sabe quase tudo de mim
Ela sabe onde eu
Queria estar enfim
É tanto, é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto
Mas seu dândi vai
De paletó chinês
Falou comigo mais de uma vez
Não, eu sei, não fui muito cortês
Com ele,não
Isso, porque ele mentiu, porque
Te ganhou e partiu
Porque o tempo consentiu
Ou se não porque
É tanto, é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto
É tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto
Skank, Tanto, 1998
Borboletas.
As pessoas não se precisam, elas se completam.
Não por serem metades, mas por serem inteiras,
Dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida.
Com o tempo,
Você vai percebendo que para ser feliz com a outra pessoa,
Você precisa em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem ou a mulher de sua vida.
Você aprende a gostar de você,
A cuidar de você,
E principalmente a gostar de quem gosta de você.
O segredo é não cuidar das borboletas e sim cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar
Não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!
Mário Quintana
Não por serem metades, mas por serem inteiras,
Dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida.
Com o tempo,
Você vai percebendo que para ser feliz com a outra pessoa,
Você precisa em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem ou a mulher de sua vida.
Você aprende a gostar de você,
A cuidar de você,
E principalmente a gostar de quem gosta de você.
O segredo é não cuidar das borboletas e sim cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar
Não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!
Mário Quintana
É magoa!
É mágoa
Já vou dizendo de antemão
Se eu encontrar com você
Tô com três pedras na mão
Eu só queria distância da nossa distância
Saí por aí procurando uma contramão
Acabei chegando na sua rua
Na dúvida qual era a sua janela
Lembrei que era pra cada um ficar na sua
Mas é que até a minha solidão tava na dela
Atirei uma pedra na sua janela
E logo correndo me arrependi
Foi o medo de te acertar
Mas era pra te acertar
E disso eu quase me esqueci
Atirei outra pedra na sua janela
Uma que não fez o menor ruído
Não quebrou, não rachou, não deu em nada
E eu pensei: talvez você tenha me esquecido
Eu só não consegui foi te acertar o coração
Porque eu já era o alvo de tanto que eu tinha sofrido
Aí nem precisava mais de pedra
Minha raiva quase transpassa a espessura do seu vidro
É mágoa
O que eu choro é água com sal
Se der um vento é maremoto
Se eu for embora não sou mais eu
Água de torneira não volta
E eu vou embora
(Adeus)
Ana Carolina, É Magoa!, 2006.
Já vou dizendo de antemão
Se eu encontrar com você
Tô com três pedras na mão
Eu só queria distância da nossa distância
Saí por aí procurando uma contramão
Acabei chegando na sua rua
Na dúvida qual era a sua janela
Lembrei que era pra cada um ficar na sua
Mas é que até a minha solidão tava na dela
Atirei uma pedra na sua janela
E logo correndo me arrependi
Foi o medo de te acertar
Mas era pra te acertar
E disso eu quase me esqueci
Atirei outra pedra na sua janela
Uma que não fez o menor ruído
Não quebrou, não rachou, não deu em nada
E eu pensei: talvez você tenha me esquecido
Eu só não consegui foi te acertar o coração
Porque eu já era o alvo de tanto que eu tinha sofrido
Aí nem precisava mais de pedra
Minha raiva quase transpassa a espessura do seu vidro
É mágoa
O que eu choro é água com sal
Se der um vento é maremoto
Se eu for embora não sou mais eu
Água de torneira não volta
E eu vou embora
(Adeus)
Ana Carolina, É Magoa!, 2006.
sábado, 17 de julho de 2010
Ficar triste é um sentimento tão legitimo quanto a alegria. Reclamar do tédio é fácil, dificil é levantar da cadeira pra fazer alguma coisa que nunca fez. Queria não me sentir tão responsável com o que acontece ao meu redor. Felicidade é a combinação de sorte com escolhas bem feitas. Pessoas com vida interessante interessam por gente que é o oposto delas. Emoção nenhuma é banal se for autentica, dar certo não esta relacionado ao ponto de chegada mais ao durante. O prazer está na invenção da propria alegria, porque é do erro que surge novas soluções, os dezacertos nos movimentam, nos humanizam, nos aproximam dos outros.
Clarice Lispector, Um Sopro de Vida, pág. 51.
Clarice Lispector, Um Sopro de Vida, pág. 51.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Sintaxe à Vontade
Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
A partir de sempre
Toda cura pertence a nós
Toda resposta e dúvida
Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
Todo verbo é livre para ser direto e indireto
Nenhum predicado será prejudicado
Nem tampouco a vírgula, nem a crase nem a frase e ponto final!
Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas
E estar entre vírgulas pode ser aposto
E eu aposto o oposto que vou cativar a todos
Sendo apenas um sujeito simples
Um sujeito e sua oração
Sua pressa e sua verdade, sua fé
Que a regência da paz sirva a todos nós... cegos ou não
Que enxerguemos o fato
De termos acessórios para nossa oração
Separados ou adjuntos, nominais ou não
Façamos parte do contexto da crônica
E de todas as capas de edição especial
Sejamos também o anúncio da contra-capa
Mas ser a capa e ser contra-capa
É a beleza da contradição
É negar a si mesmo
E negar a si mesmo
Pode ser também encontrar-se com Deus
Com o teu Deus
Sem horas e sem dores
Que nesse encontro que acontece agora
Cada um possa se encontrar no outro
Até porque!
Tem horas que a gente se pergunta...
Por que é que não se junta
Tudo numa coisa só?
O Teatro Mágico
Respeitável público pagão
A partir de sempre
Toda cura pertence a nós
Toda resposta e dúvida
Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
Todo verbo é livre para ser direto e indireto
Nenhum predicado será prejudicado
Nem tampouco a vírgula, nem a crase nem a frase e ponto final!
Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas
E estar entre vírgulas pode ser aposto
E eu aposto o oposto que vou cativar a todos
Sendo apenas um sujeito simples
Um sujeito e sua oração
Sua pressa e sua verdade, sua fé
Que a regência da paz sirva a todos nós... cegos ou não
Que enxerguemos o fato
De termos acessórios para nossa oração
Separados ou adjuntos, nominais ou não
Façamos parte do contexto da crônica
E de todas as capas de edição especial
Sejamos também o anúncio da contra-capa
Mas ser a capa e ser contra-capa
É a beleza da contradição
É negar a si mesmo
E negar a si mesmo
Pode ser também encontrar-se com Deus
Com o teu Deus
Sem horas e sem dores
Que nesse encontro que acontece agora
Cada um possa se encontrar no outro
Até porque!
Tem horas que a gente se pergunta...
Por que é que não se junta
Tudo numa coisa só?
O Teatro Mágico
Viver de Poesia
O que me dá gosto é saber que o tempo não volta.
Amanhã e depois de amanhã nunca mais serei eu.
Poetas são sábios de segundos. Não sobrevivem
para ver o poema crescer.
O meu consolo é que o amanhã acordará de nuvens
carregadas de antigas paixões.
Talvez eu morra de saudade mas, sinceramente, eu
prefiro morrer de poesia.
Sim, é preciso morrer de poesia e viver um poema
a cada dia.
Quem vive um poema a cada dia sabe o encanto de
um nascer do sol, e sabe que o amanhã pode trazer
todas as cores da estação, ou não.
Quem vive um poema a cada dia sabe que na poesia
existe um segundo escondido no espaço do tempo.
A gente chama isso de esperança.
Nathan de Castro
Amanhã e depois de amanhã nunca mais serei eu.
Poetas são sábios de segundos. Não sobrevivem
para ver o poema crescer.
O meu consolo é que o amanhã acordará de nuvens
carregadas de antigas paixões.
Talvez eu morra de saudade mas, sinceramente, eu
prefiro morrer de poesia.
Sim, é preciso morrer de poesia e viver um poema
a cada dia.
Quem vive um poema a cada dia sabe o encanto de
um nascer do sol, e sabe que o amanhã pode trazer
todas as cores da estação, ou não.
Quem vive um poema a cada dia sabe que na poesia
existe um segundo escondido no espaço do tempo.
A gente chama isso de esperança.
Nathan de Castro
Confissão
Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Mario Quintana
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Mario Quintana
sábado, 26 de junho de 2010
Invictus
Desde a noite que sobre mim se abate,
Negra como seu insondável abismo,
Agradeço aos deuses se existem,
Por minha alma invencível,
Caído nas garras da circunstância,
Nada me faz chorar nem pestanejar,
Minha cabeça ensangüentada segue erguida,
Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra,
Mas a ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará, sem medo.
Não importa quão estreito seja o caminho,
Quão carregada de castigo a sentença.
Sou o senhor do meu destino;
Sou capitão da minha alma.
Willian Ernest, Invictus 1903.
Negra como seu insondável abismo,
Agradeço aos deuses se existem,
Por minha alma invencível,
Caído nas garras da circunstância,
Nada me faz chorar nem pestanejar,
Minha cabeça ensangüentada segue erguida,
Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra,
Mas a ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará, sem medo.
Não importa quão estreito seja o caminho,
Quão carregada de castigo a sentença.
Sou o senhor do meu destino;
Sou capitão da minha alma.
Willian Ernest, Invictus 1903.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Admirável Mundo Novo
O remorso crônico, e nisso estão de acordo todos os moralistas, é sentimento muito indesejável. Se você se comportou mal, arrependa-se, faça as correções que puder e dedique-se à tarefa de portar-se melhor da próxima vez. De modo nenhum acalente sua má ação. Rolar na sujeira não é o melhor meio de se limpar.
A arte também tem a sua moralidade, e muitas das regras dessa moralidade são as mesmas da ética comum, ou ao menos análogas a elas. Por exemplo: o remorso é tão indesejável em relação a nossa má arte quanto em relação ao nosso mau comportamento. A maldade deve ser encontrada, reconhecida e, se possível, evitada no futuro. Meditar sobre as falhas literárias de há dez anos atrás, procurar remendar uma obra deficiente até chegar à perfeição que não possuía na primeira apresentação, despender a idade madura tentando consertar os pecados artísticos cometidos e legados por essa pessoa diferente que se foi na junventude - decerto tudo isso é vão e fútil. Eis por que este Admirável Mundo Novo é o mesmo do antigo.
Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo 1932.
Prefácio da obra. Leitura iniciada hoje, possivelmente poste a recomendação ao acabá-lo. Aviso-vos.
A arte também tem a sua moralidade, e muitas das regras dessa moralidade são as mesmas da ética comum, ou ao menos análogas a elas. Por exemplo: o remorso é tão indesejável em relação a nossa má arte quanto em relação ao nosso mau comportamento. A maldade deve ser encontrada, reconhecida e, se possível, evitada no futuro. Meditar sobre as falhas literárias de há dez anos atrás, procurar remendar uma obra deficiente até chegar à perfeição que não possuía na primeira apresentação, despender a idade madura tentando consertar os pecados artísticos cometidos e legados por essa pessoa diferente que se foi na junventude - decerto tudo isso é vão e fútil. Eis por que este Admirável Mundo Novo é o mesmo do antigo.
Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo 1932.
Prefácio da obra. Leitura iniciada hoje, possivelmente poste a recomendação ao acabá-lo. Aviso-vos.
terça-feira, 22 de junho de 2010
O analfabeto político.
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos
acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de
vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do
aluguel, do sapato e do remédio dependem das
decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e
estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante
e o pior de todos os bandidos, que é o político
vigarista, pilantra, o corrupto e o lacraio das empresas
nacionais e multinacionais.
Bertolt Brecht, A Exceção e a Regra 1927
Trecho de uma das obras memoráveis desse incrível escritor e dramaturgo alemão. Texto o qual também se faz presente no artigo em que eu escrevi junto ao Acessor do Supremo Tribunal Federal, Dr. Fabrício Muraro Novais e a Professora Assistente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Msc. Vanessa Casotti; A Inelegibilidade fundada na vida pregressa desfavorável dos candidatos, disponível no banco de dados do Tribunal Superior Eleitoral, fica a recomendação de leitura.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos
acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de
vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do
aluguel, do sapato e do remédio dependem das
decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e
estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante
e o pior de todos os bandidos, que é o político
vigarista, pilantra, o corrupto e o lacraio das empresas
nacionais e multinacionais.
Bertolt Brecht, A Exceção e a Regra 1927
Trecho de uma das obras memoráveis desse incrível escritor e dramaturgo alemão. Texto o qual também se faz presente no artigo em que eu escrevi junto ao Acessor do Supremo Tribunal Federal, Dr. Fabrício Muraro Novais e a Professora Assistente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Msc. Vanessa Casotti; A Inelegibilidade fundada na vida pregressa desfavorável dos candidatos, disponível no banco de dados do Tribunal Superior Eleitoral, fica a recomendação de leitura.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciêricias, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a
Sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seia de companhia!
Ó céu azul -o mesmo da minha infância
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ô mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Fernando Pessoa, Lisbon Revisted 1926.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciêricias, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a
Sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seia de companhia!
Ó céu azul -o mesmo da minha infância
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ô mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Fernando Pessoa, Lisbon Revisted 1926.
sábado, 19 de junho de 2010
O que é: é.
Já havia tido contato com a obra, mas nada melhor do que a original em digitalização única. Segue a tradução do 119:
Não haja impedimento à união
de almas fiéis; amor não é amor
se se altera ao ver alteração
ou curvar a qualquer pôr e dispor.
Ah, não, é um padrão sempre constante
que enfrenta as tempestades com bravura;
é estrela a qualquer barco navegante,
de ignoto poder, mas dada altura.
Do Tempo, o amor não é bufão, na esfera
da foice cuva em bocas, róseos rostos;
com breve hora ou semana nãos e altera
e até ao julgamento fica a postos.
- E se isto é erro e em mim a prova tem,
- nunca escrevi e nunca amou ninguém.
W.Shakespeare, Sonnets (Sonnet 119)
E esse vai ser o nosso segredo: não era amor!
Págs. 21 e 22.
Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações. Talvez apenas alguns goles... Ah, eis uma lição, eis uma lição, diria a tia: nunca ir adiante, nunca roubar antes de saber se o que você quer roubar existe em alguma parte honestamente reservado para você. Ou não? Roubar torna tudo mais valioso. O gosto do mal - mastigar vermelho, engolir fogo adocicado.
Não acusar-me. Buscar a base do egoísmo: tudo o que não sou não pode me interessar, há impossibilidade de ser além do que se é - no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu quase normalmente -; tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação do meu começo; se a civilização dos Maias não me interessa é porque nada tenho dentro de mim ao que se possa unir aos seus baixos relevos; aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas e é possível que esteja pisando no vital sem saber, é essa a minha maior humildade , adivinha ela.
O pior é que ela poderia riscar tudo o que pensara. Seus pnesamentos eram, depois de erguidos, estátuas no seu jardim e ela passava pelo jardim olhando e seguindo o seu caminho.
[...]
No primeiro, no centro final, a sensação simples e sem adjetivos, tão cega quanto uma pedra rolando. Na imaginação, que só ela tem a força do mal, apenas a visão engradecida e transformada sob ela a verdade impassível. Mente-se e cai-se na verdade. Mesmo na liberdade, quando escolhia alegre novas veredas, reconheci-as depois. Ser livre era seguir-se afinal, e eis de novo o caminho traçado. Ela só veria o que já possuía dentro de si. Perdido pois o gosto de imaginar. E o dia em que chorei? - havia certo desejo de mentir também - estudava matemática e subitamente senti a impossibilidade tremenda e fria do milagre. Olho por essa janela e a única verdade, a verdade que eu não poderia dizer àquele homem, abordando-o, sem que ele fugisse de mim, a única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais. Lembro-me de um estudo cromático de Bach e perco a inteligência. Ele é frio e puro como gelo, no entanto pode-se dormir sobre ele. Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.
Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem.
Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações. Talvez apenas alguns goles... Ah, eis uma lição, eis uma lição, diria a tia: nunca ir adiante, nunca roubar antes de saber se o que você quer roubar existe em alguma parte honestamente reservado para você. Ou não? Roubar torna tudo mais valioso. O gosto do mal - mastigar vermelho, engolir fogo adocicado.
Não acusar-me. Buscar a base do egoísmo: tudo o que não sou não pode me interessar, há impossibilidade de ser além do que se é - no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu quase normalmente -; tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação do meu começo; se a civilização dos Maias não me interessa é porque nada tenho dentro de mim ao que se possa unir aos seus baixos relevos; aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas e é possível que esteja pisando no vital sem saber, é essa a minha maior humildade , adivinha ela.
O pior é que ela poderia riscar tudo o que pensara. Seus pnesamentos eram, depois de erguidos, estátuas no seu jardim e ela passava pelo jardim olhando e seguindo o seu caminho.
[...]
No primeiro, no centro final, a sensação simples e sem adjetivos, tão cega quanto uma pedra rolando. Na imaginação, que só ela tem a força do mal, apenas a visão engradecida e transformada sob ela a verdade impassível. Mente-se e cai-se na verdade. Mesmo na liberdade, quando escolhia alegre novas veredas, reconheci-as depois. Ser livre era seguir-se afinal, e eis de novo o caminho traçado. Ela só veria o que já possuía dentro de si. Perdido pois o gosto de imaginar. E o dia em que chorei? - havia certo desejo de mentir também - estudava matemática e subitamente senti a impossibilidade tremenda e fria do milagre. Olho por essa janela e a única verdade, a verdade que eu não poderia dizer àquele homem, abordando-o, sem que ele fugisse de mim, a única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais. Lembro-me de um estudo cromático de Bach e perco a inteligência. Ele é frio e puro como gelo, no entanto pode-se dormir sobre ele. Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.
Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
Trecho de Tabacaria - Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), 15-1-1928 .
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
Trecho de Tabacaria - Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), 15-1-1928 .
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